quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Veronika Decide Morrer - Trecho 2

Existem coisas que são governadas pelo bom senso humano: colocar botões na frente da camisa é uma questão lógica, já que ficaria muito difícil abotoá-los de lado, e impossível abotoá-los se estivessem nas costas.
Outras coisas, porém, vão se impondo porque cada vez mais gente acredita que elas têm que ser assim. Vou lhe dar dois exemplos: você já se perguntou por que as letras de um teclado de máquina de escrever são colocadas naquela ordem?
_ Nunca me perguntei isso.
_ Chamemos esse teclado de QWERTY, já que as letras da primeira linha estão dispostas assim. Eu me perguntei o porquê disso e encontrei a resposta: a primeira máquina foi inventada por Christopher Sholes, em 1873, para melhorar a caligrafia. Mas ela apresentava um problema: se a pessoa datilografava com muita velocidade, os tipos se chocavam e travavam a máquina. Então Sholes desenhou o teclado QWERTY, um teclado que obrigava os datilógrafos a andarem devagar.
_ Não acredito.
_ Mas é verdade. Acontece que a Remington – na época, fabricante de máquinas de costura – usou o teclado QWERTY para suas primeiras máquinas de escrever. O que significa que mais pessoas foram obrigadas a aprender esse sistema, e mais companhias passaram a fabricar esse teclado, até que ele se tornou o único padrão existente. Repetindo: o teclado das máquinas, e dos computadores, foi desenhado para que se digitasse mais lentamente e não mais rápido, entendeu? Vá tentar trocar as letras de lugar e não encontrará um comprador para o seu produto.
Quando vira um teclado pela primeira vez, Mari perguntara-se por que não estava em ordem alfabética. Mas nunca mais repetira a pergunta – acreditava que aquele era o melhor desenho para que as pessoas datilografassem rápido.
_ Você conhece Florença? – perguntou o Dr.Igor.
_ Não.
_ Devia conhecer, não está muito longe e ali está o meu segundo exemplo. Na Catedral de Florença, há um relógio belíssimo, desenhado por Paolo Uccello em 1443. Acontece que esse relógio tem uma curiosidade: embora marque as horas, como todos os outros, os ponteiros andam em sentido contrário ao que estamos acostumados.
_ O que isso tem a ver com minha doença?
_ Eu vou chegar lá. Paolo Ucello, ao criar esse relógio, não estava tentando ser original: na verdade, naquele momento havia alguns relógios assim, outros com os ponteiros andando no sentido que hoje conhecemos. Por alguma razão desconhecida, talvez porque o Duque tinha um relógio com os ponteiros andando no sentido que hoje conhecemos como “certo”, este terminou se impondo como o único sentido, e o relógio de Uccello passou a ser uma aberração, uma loucura.


Em "Veronika decide morrer", p.152-154
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