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terça-feira, 15 de outubro de 2024

Os professores da "Cidade sonho"

Ao lado de seus pais, o menino ouviu atentamente a história contada pelo amigo e médico da família, Dr Adaucto.

Naquele momento, ele reconheceu o valor daquele tão guardado segredo:

_ Os adolescentes da "Cidade Sonho", na metade da década de 1940, estabeleceram-se como educadores porque quando terminou a última guerra mundial, jovens aviadores encontraram num campo de concentração a seguinte mensagem dirigida aos professores:

"Prezado professor,

Sou sobrevivente de um campo de concentração.

Meus olhos viram o que nenhum ser humano deveria ver.

Câmaras de gás construídas por engenheiros formados.

Crianças envenenadas por médicos diplomados.

Recém-nascidos mortos por enfermeiras treinadas.

Mulheres e bebês fuzilados e queimados por graduados de colégios e universidades.

Assim, tenho minhas suspeitas sobre a Educação.

Meu pedido é: ajude seus alunos a tornarem-se humanos.

Seus esforços nunca deverão produzir monstros treinados ou psicopatas hábeis.

Lembre-se que 'Ler e Escrever' são fundamentos importantes, mas o crescimento espiritual e o amadurecimento da alma irão fazer nossas crianças mais humanas."

Aulus Di Toam


quarta-feira, 7 de agosto de 2024

Meu pai, meu herói

Maria era uma menina que chegava a discutir com os seus amiguinhos quando o assunto era “quem tinha o melhor pai”:

_ O meu pai sabe tudo, o meu pai é o mais legal, o meu pai tem o coração mais bonito, etc.

Nesta idade a sua imaginação estava de vento em popa, fantasiava situações onde o seu pai era o personagem principal, o herói, pois ele tinha a resposta para todas as perguntas – ele era o maior.

De nada adiantava dizer a ela para não contar mentiras sobre seu pai, pois ela não sabia distinguir o que era verdade, mentira ou fruto da sua imaginação.

Ela dedicava uma admiração muito especial ao pai.

Quando ela chegava na casa de sua avó, com quem morava, a euforia diminuía.

Ela sempre foi uma menina solitária e mal chegou a conhecer o seu pai, e muito menos a sua história. Sabia apenas que a sua mãe não lhe pudera criar e que a deixou com a sua avó.

Passava a noite sonhando e chorando.

Sentia muitas saudades do pai imaginário.

Jamais soube seu nome pois em seus documentos constavam apenas o nome de sua mãe.

Admirava o pai que não conhecera, fingia o tempo todo que ele teve um papel em sua educação, que lhe dava bons exemplos e que ele era o espelho na formação da sua personalidade.

Em paralelo a isso, Deus sempre esteve presente em sua vida, acompanhando-a tanto no seu desenvolvimento espiritual como no crescimento de sua alma.

Demonstrava tanta força para os seus amigos que eles nem desconfiavam que o seu pai era ausente, irreal e que ela não tinha nenhuma referência sobre ele.

Apesar de tudo, Maria foi suportando os árduos anos da infância. Cresceu, desenvolveu-se profissionalmente e pessoalmente, trabalhou em várias empresas, casou e teve dois lindos meninos e acabou convencendo seu companheiro que cuidaria do lar e do desenvolvimento de sua família.

Tornara-se uma pessoa responsável e exemplo de mãe.

Em virtude do aprendizado que teve durante a sua vida, dedicou-se a trabalhos sociais procurando mostrar aos filhos a importância da unidade familiar, da humildade, da caridade e do amor.

Apesar das turbulências iniciais em sua vida, jamais revelou a seus amiguinhos de infância o motivo pelo qual “tinha o melhor pai”: DEUS.

Aulus Di Toam

quarta-feira, 12 de junho de 2024

Falso ou Verdadeiro

Apesar de todos seus defeitos, o meu pai sempre foi o meu grande ídolo.

Certa vez, quando cursava o grupo escolar, a Tia Cida precisou se ausentar, e pediu para que o meu irmão Alexandre a ajudasse tomando conta dos seus alunos.

Assim que ela saiu da sala de aula, as crianças solicitaram ao Alexandre para abonar as suas faltas no diário escolar em troca de alguns trocados.

Naquele dia o Alexandre chegou em casa com um montão de dinheiro e foi logo correndo emprestar para o nosso pai, que não estava lá com as suas finanças em dia.

Logicamente o nosso pai quis saber a origem daquelas moedas. E Alexandre acabou revelando, contra a sua vontade, a fonte de toda aquela sua riqueza.

Bastante preocupado, o nosso pai então colocou Alexandre sentado em um banco no alpendre e lhe fez a seguinte proposta:

_ Filho, você quer ser um alguém falso ou um ninguém verdadeiro?

_ Sendo falso, você sempre será reconhecido. Será famoso pelas suas travessuras, terá notoriedade, mas não terá amigos por que você não será confiável.

_ Sendo verdadeiro, a sua presença não precisa ser anunciada. Você será honesto, humilde e será uma fortaleza em que todos poderemos confiar.

O Alexandre pediu desculpas ao nosso pai e à professora, além de reconhecer e corrigir o seu erro na escola perante os colegas.

Aquela situação havia nos revelado uma das maiores lições de aprendizado.

Aulus Di Toam

quarta-feira, 8 de maio de 2024

Em busca da mulher perfeita

Eu estava com o meu velho pai na varanda de casa quando ele me perguntou:

_ Filho, com o quê você está preocupado?

_ Ah, meu pai. Acho que está na hora de sair em busca da minha “cara-metade”, da mulher com quem tanto sonhei – a mulher perfeita.

Meu velho pai, já demonstrando muita confiança em meu amadurecimento, me respondeu:

_ Vá meu filho, e quando a busca se der por encerrada volte aqui para conversarmos.

Anos e anos se passaram e um certo dia, quando a busca já havia terminado e me encontrava sozinho e muito decepcionado, resolvi voltar e visitar o meu velho pai, que mais uma vez recepcionou-me calorosamente.

_ Como é, meu filho, encontrou a mulher perfeita?

_ Sim, meu pai, encontrei aquela mulher com quem tanto sonhara.

_ Mas, filho, onde ela está? Não vai apresenta-la ao seu pai?

Meio sem jeito, respondi ao meu velho:

_ Encontrar, eu a encontrei, mas ela estava à procura do homem perfeito!

Naquele momento, aquele quem reconheci tardiamente ser o meu melhor amigo, revelou-me um segredo:

_ Filho, agradeço esta oportunidade que você está me oferecendo para ajudá-lo. Acho que você deve reformular os seus conceitos e sair novamente em busca de uma outra mulher – que tenha amor, seja solidária e tenha respeito – cuja qualidade de sua alma esteja em busca do aperfeiçoamento de vocês dois e que seja capaz de transformá-los no homem e na mulher perfeitos.

Aulus Di Toam

quarta-feira, 10 de abril de 2024

Dualidade interior

O filho aproxima-se do pai, já cheio de raiva no coração porque seu melhor amiguinho havia cometido uma injustiça.

_ Deixe-me contar-lhe uma história – diz o velho pai.

“Muitas vezes senti grande ódio daqueles que aprontaram, principalmente quando percebia a maldade ou quando eles não se arrependiam.

Todavia, com o tempo aprendi que o ódio me corroía, mas não feria o meu inimigo.

É como tomar veneno ao desejar que o inimigo morra.

Passei a lutar contra esses sentimentos”.

E o experiente homem continuou...

“Tenho a sensação de que existem dois lobos dentro de mim.

Um dos lobos é bom, só quer o bem, e não magoa ninguém.

Esse lobo vive em harmonia com o universo ao seu redor, e não se ofende, é paciente e só transmite paz – a felicidade da alma.

Esse lobo só luta quando é certo lutar, e quando luta, o faz da maneira correta.

Mas, ah, o outro lobo é cheio de raiva.

Mesmo pequeninas coisas provocam sua ira.

Ele briga com todos, o tempo todo, em qualquer lugar, sem qualquer motivo.

Ele não consegue nem pensar, porque sua raiva e seu ódio são tão grandes que ocupam toda sua energia mental.

É uma raiva inútil, porque essa raiva não mudará o mundo.

Às vezes, é difícil conviver com os dois lobos dentro de mim, porque ambos tentam dominar meu espírito”.

O garoto – atento – olhou intensamente nos olhos do pai e carinhosamente perguntou:

_Qual deles vence, pai?

O velho pai sorriu e respondeu baixinho:

_Aquele que eu alimento com mais frequência.

Adaptação de Aulus Di Toam

quarta-feira, 13 de março de 2024

Convivência


Há muito tempo atrás ocorreu uma era glacial.

A maior parte da terra ficou coberta por uma imensa camada de gelo e houve o desaparecimento de quase todo o reino animal – muitos não se adaptaram às condições climáticas.

Acabaram restando alguns porcos-espinhos que se juntaram na tentativa de proteger e preservar a pequena espécie.

Assim, cada um podia sentir o calor do corpo do outro, e todos juntos, unidos, aqueciam-se mutuamente a fim de enfrentar por mais tempo aquele inverno tenebroso.

Porém, preocupados apenas com suas individualidades, não observaram que os seus espinhos feriam os companheiros mais próximos, justamente aqueles que lhes forneciam mais calor. Feridos e magoados, não se suportavam mais, e acabaram se isolando.

Separados, logo começaram a morrer congelados.

Os que não morreram voltaram a se aproximar.

E pouco a pouco, começaram a conviver, respeitando uma distância do outro, o suficiente para não ferir, não magoar e não causar danos recíprocos.

Assim suportaram-se... E resistiram à longa era glacial.

Aulus Di Toam

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

O Poder Mágico

Era uma vez, no tempo dos cavaleiros de armaduras, um jovem que tinha medo de testar sua habilidade com as armas, apesar de querer participar do torneio local.

Certo dia, seus fiéis amigos quiseram pregar-lhe uma peça e lhe deram de presente uma espada, dizendo que tinha um poder mágico.

_ Quem a empunhasse jamais seria derrotado.

Para surpresa de seus amigos, o jovem participou do torneio fazendo uso daquele presente, e ganhou todos os combates.

Ninguém jamais vira tanta velocidade e ousadia numa espada.

A cada torneio, a notícia de sua maestria se espalhava, e não tardou a ser ovacionado como o primeiro cavaleiro do reino.

Por fim, achando que não faria mal nenhum, um dos seus amigos resolveu trazer à tona aquela brincadeira, lhe confessando que o instrumento não tinha nada de mágico, era só uma espada comum.

Imediatamente o jovem cavaleiro foi dominado pelo terror.

De pé, ainda nos bastidores da área de combate, a imobilidade apoderou-se de seu corpo. Incapaz de continuar acreditando na espada, ele já não acreditava mais em si mesmo.

E nunca mais competiu.

Aulus Di Toam

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

Desembaraçando os fios

Há uma lenda que diz que o CÉU fez o último acordo com a TERRA para fazer um teste nos homens: “Construir uma tecelagem na Terra para fabricar tecidos finos”.

A recomendação dada pelo CÉU era:

_ Quando, em dado momento, os fios se embaraçarem, o operador deve tocar uma campainha para ser atendido por um funcionário especializado – DEUS – que colocará as coisas em ordem novamente.

Certa ocasião, entretanto, depois de um rapazinho ter pedido o auxílio do ESPECIALISTA e recebido assistência, um operário antigo na fábrica achou que ele próprio já sabia o suficiente, e podia passar sem o auxílio desse profissional.

Alguns minutos se passaram, quando novamente os fios de embaraçaram. Ele mesmo tentou arrumar seus fios, porém, ficaram terrivelmente emaranhados e o estrago foi muito grande.

A campainha acabou sendo forçosamente acionada, mesmo contra a vontade do velho sabe-tudo.

Na presença do Mestre, ele reclamou:

_ Mas eu fiz o meu melhor!

DEUS replicou:

_ O seu melhor é chamar por mim!

Aulus Di Toam

quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

A Magia da Vida


Era uma vez um casal que tinha um filho chamado Zezão.

O menino era forte e sadio, mas não gostava de ir à escola e passava o tempo todo sonhando, só que acordado.

_ Zezão, com o que você está sonhando a uma hora dessas? – perguntava-lhe a professora.

_ Estava pensando no que serei quando crescer – respondia ele.

_ Seja paciente. Você terá muito tempo para pensar nisso – dizia ela.

Mas Zezão tinha dificuldades para apreciar qualquer coisa que estivesse fazendo no momento, e sonhava sempre com a próxima.

No inverno, sonhava com o clima quente da praia, e no verão sonhava com a neve.

Na escola, torcia pelo fim da aula, e em casa, sonhava com a vida fácil lá de fora.

Na cidade sonhava com o campo, e na montanha sonhava com o céu.

Às vezes, deitava-se ao sol, com as mãos sob a cabeça, e fitava o céu através dos galhos das árvores.

Uma tarde quente ouviu alguém chamando pelo seu nome.

Viu uma anciã em pé à sua frente. Ela trazia na mão um relógio de pulso, igual ao de seu avô, do qual pendia um cordão dourado.

_ Olhe o que tenho aqui, Zezão – disse ela, oferecendo-lhe o objeto.

_ O que é isso? – perguntou curioso, tocando o fino cordão dourado.

_ É o cordão da sua vida, é mágico – retrucou a mulher. Não toque nele e o tempo passará normalmente.

Mas se desejar que as coisas boas aconteçam, com o tempo andando mais rápido, basta dar um leve puxão no cordão e as horas passarão em fração de segundo. Mas devo avisá-lo: uma vez que o cordão tenha sido puxado, ele não poderá voltar à posição anterior.

Mas se aceitar o meu presente, não conte esse nosso segredo a ninguém, senão você ficará muito doente e não sobreviverá.

Zezão tomou-lhe das mãos aquele valioso presente, e berrou, demonstrando enorme felicidade.

Era exatamente o que ele queria.

O menino colocou-o no bolso e foi correndo para casa.

No dia seguinte já na escola, Zezão imaginava o que fazer com o seu relógio mágico.

A professora o repreendeu por não se concentrar nos deveres. Zezão então deu um leve puxão no cordão e lá estava ele na frente de sua casa.

Como a vida seria fácil agora! Todos os seus problemas haviam terminado.

Dali em diante, passou a puxar o cordão, um pouquinho todos os dias.

Entretanto, achou que era tolice puxar apenas um pouquinho.

Se desse um puxão bem forte, o período escolar estaria concluído de uma vez.

Naquela noite, deu um grande puxão no cordão e acordou na manhã seguinte, atuando como modelo e manequim na cidade mais importante do mundo.

Zezão adorou sua nova vida, desfilando para os maiores costureiros, aparecendo como garoto propaganda das melhores grifes; enfim estava fazendo o que tanto havia sonhado.

Ele não tinha tempo para mais nada.

Se tinha algo que o incomodava, lá ia ele puxar o cordão, pois não tinha tempo para perder com algumas besteiras que poderiam incomodá-lo.

Já estava rico, famoso e era fisicamente atraente, “o sonho de criança havia sido alcançado”.

Agora o objetivo era o casamento.

Resolveu então puxar com mais força o cordão, até encontrar a mulher mais linda do mundo, pois aquela seria a época mais importante da sua vida.

No dia do casamento, todos estavam felizes, inclusive sua avó materna e seus pais.

Olhando para sua mãe, notou-lhe os cabelos já brancos, e sentiu-se mal por ter puxado tanto aquele cordão.

Alguns meses mais tarde sua esposa anunciou-lhe que esperava um filho.

Mas ele não queria esperar tanto tempo para ver seu filho, e quando ele nasceu, a cada vez que ele adoecia, ou chorava à noite, ele puxava o cordão um pouquinho.

Notou que o cordão estava ficando prateado. Seu cabelo começava a ficar grisalho e seu rosto apresentava rugas.

Sentiu medo.

Teve outros filhos e mantinha o relógio bem escondido, resguardado dos olhos curiosos.

A casa foi ficando pequena, então ele resolveu ampliá-la. E dá-lhe puxão no cordão.

Logo que seus pais faleceram ele percebeu que a vida passara rápido.

Uma noite, sem conseguir dormir, achou que sua vida seria melhor se seus filhos já estivessem crescidos e com carreiras encaminhadas. Deu um forte puxão no cordão e logo todos os seus filhos estavam crescidos e já não moravam mais com ele.

Seu cabelo estava todo branco e as pernas e costas doíam. Sua esposa vivia doente.

Pegou então o relógio com o cordão mágico e levou um susto.

Estava cinza, perdera o brilho.

Decidiu ir à floresta e embaixo de uma árvore decidiu tirar um cochilo.

De repente, ouviu alguém chamando:

_ Zezão, Zezão!

_ Então, a sua vida foi boa? – perguntou a mulher que encontrara anos antes, a mesma que lhe entregara o relógio mágico.

_ Não estou bem certo – disse ele – seu relógio é maravilhoso. Jamais tive que suportar qualquer sofrimento, mas foi tudo muito rápido.

_ Sinto que tudo se passou sem que eu aprendesse direito: nem as coisas boas, nem as ruins. E agora, falta tão pouco tempo! Não ouso mais puxar o cordão, pois isto só anteciparia minha morte. Acho que seu presente não trouxe sorte.

_ Mas que falta de gratidão! Então você queria que tudo fosse diferente?

_ Talvez, se você tivesse me dado um relógio com um cordão que eu pudesse puxar, tanto para acelerar como para voltar o tempo.

A mulher sorriu.

_ Está pedindo muito! Você acha que pode viver a vida mais de uma vez? Bem, ainda posso conceder-lhe um último pedido, seu mal-agradecido. 

_ Pode? – perguntou ele.

_ Escolha o que você quiser – disse ela.

Zezão pensou bastante e disse:

_ Eu gostaria de tornar a viver minha vida, como se fosse a primeira vez, mas sem seu relógio mágico. Assim poderei experimentar as coisas ruins da mesma forma que as boas sem encurtar sua duração, e pelo menos minha vida não passará tão rápido e nem perderá o sentido como um devaneio.

_ Assim seja. Devolva-me o relógio – disse a mulher.

Ela esticou a mão e lhe tirou o presente.

Em seguida, ele se recostou, exausto e fechou os olhos.

Quando acordou, estava na cama. Sua mãe o chamava para a escola.

Ele a segurou pelo pescoço e a beijou ternamente, durante um longo tempo.

Aulus Di Toam


quarta-feira, 15 de novembro de 2023

Você sente falta de quê


Naquele final de tarde, marido e mulher chegam quase no mesmo horário em casa.

O marido, com cara de poucos amigos, e como sempre “preocupado apenas com o seu umbigo”, mal teve tempo de observá-la, e muito menos de cumprimentá-la.

Talvez influenciado pelo pôr do sol, que já se fora, o marido inicia um pequeno combate com sua companheira:

_ Pela sua cara, você deve ter comido algo estragado! Por que esta cara fechada? Você deve agradecer tudo o que tem! Você tem tudo! Não lhe falta nada! Não lhe falta onde morar! Não lhe falta o que comer! Não lhe falta o que vestir! Não lhe falta onde trabalhar! Não lhe falta com o que comprar! ... blá, blá,blá... blá, blá, blá... blá, blá, blá ... Não lhe falta isso e nem aquilo! Você está sentindo falta de quê?

_ DISSO!

Aulus Di Toam

domingo, 15 de outubro de 2023

Riqueza

A jovem professorinha viajava diariamente de ônibus para lecionar na escola rural do município.

Enquanto a velha jardineira percorria as perigosas curvas da serra da região, ela fitava os olhos para a paisagem de pouco verde, e, com as suas mãos em movimento fora do veículo, aparentava conversar com os animais.

Isso é coisa de pessoa anormal “esquizofrênica” – diziam.

As pessoas zombavam do seu comportamento e, em toda a região, o boato se espalhava: a jovem professora era doente; alguns diziam que era uma mania passageira e inofensiva.

O tempo passou.

Com o progresso, a escola rural foi transferida para a cidade, e a jovem professora acabou ali se aposentando, e pouco tempo depois, falecendo.

Alguns anos se passaram, e em virtude de “grandes transformações” no planeta, uma equipe de cientistas veio até a região desenvolver pesquisas que explicassem alguns fenômeno.

- O clima de grande parte do planeta dependia daquela zona rural e a vegetação existente naquela serra era repleta, e de uma enorme variedade, de plantas e de flores.

- Poucos profissionais, talentosos, que se encontravam espalhados pelo mundo, tinham habilidades que os outros não tinham. Uma única particularidade, que os diferenciavam dos demais, e que chamava a atenção da ciência, era que eles haviam estudado naquela pobre escola, e na mesma época.

Após anos de intensos estudos, a comunidade científica descobriu que a professorinha – considerada “doente” – foi a principal responsável por tais fenômenos: “lançou diariamente, por mais de três décadas, uma variedade de sementes, tanto nas laterais da serra quanto nas mentes daquelas crianças”.

Enquanto muitos viviam preocupados com milhões de dólares, ela vivia preocupada com os seus milhões de embriões.

Enquanto ela viveu, lutou apenas para ser respeitada.

Ela sabia que no momento certo as pessoas iriam amá-la.

Aulus Di Toam


quinta-feira, 14 de setembro de 2023

Bondade ou Oportunidade

Nunca tivera tempo para a sua mãe.

Uma vez teve uma festa para ir, em outra reuniu em sua casa seus amigos até tarde da noite, e assim ela nunca pode comparecer a algum encontro com a sua velha mãe.

Mas fez questão de, no último suspiro daquela quem sempre lhe ofereceu cuidados maternais, fazer-lhe uma última pergunta:

_ Mãe, como eu poderia ter aproveitado o momento em que a senhora iria ser bondosa comigo?

_ Minha filha, você não deveria apenas esperar pela minha bondade. Você deveria ter agarrado todas as oportunidades que o mundo lhe ofereceu!

Aulus Di Toam

segunda-feira, 7 de agosto de 2023

Correspondência para o Mestre

 

Mestre!

Não sei se devo lhe dizer, mas estou preocupado com a tua volta porque alguns dos sinais que indicastes já estão aparecendo.

Por isso, mestre, venho suplicar-lhe: NÃO VENHAS AGORA!

Estou metido em muitos negócios que não podem ser interrompidos no “pé-em-que-estão”; deixe-me primeiro solucionar alguns problemas e depois podes voltar. Mas não chegues num dia chuvoso, pois com toda certeza, estarei em casa vendo televisão. Também não venha num dia frio, em dias assim eu adoro tirar uma sonequinha, você sabe como é, né!

Peço-te também que não venhas num dia muito quente, estarei com certeza cuidando do meu visual. Tenho que ficar “saradão”.

Por favor, mestre, não volte quando eu estiver em férias – janeiro e julho – para não interromper minhas poucas horas de lazer. Nem venha num sábado ou domingo, pois são “dias-santos”, fazemos churrascada com os “amigos-do-peito”. Nas segundas, quartas e sextas gosto de sair, e ficaria frustrado de não poder vê-lo. Se não estou sendo inoportuno, Mestre, peço-te que não voltes à noite, porque durmo um sono tão pesado. Ah, e nem aos domingos consigo acordar em tempo para bater uma prosa contigo.

Por favor, bom mestre, avisa-me uns dias antes da tua vinda, para que eu tenha tempo de procurar alguns veículos de comunicação, já com as cenas e os discursos apropriados que iremos apresentar em rede nacional. Vai ser da hora! Só espero que o Senhor seja fotogênico, pra sair bem na foto!

Mestre! Eu insisto para que me avise com antecedência pois também gostaria de fazer as pazes com várias pessoas. Se puderes avisar com alguns meses de antecedência, ficaria muito contente, porque poderia ajudá-las a terminar a leitura daqueles livrinhos que falam de coisinhas que algumas pessoinhas deveriam promover. Sabe como é, né!

Avise-me com antecedência pois eu gostaria de trazer algumas crianças bem pobres para cear aqui em casa na hora do teu regresso, pois assim poderia ouvir de Ti aquelas palavras:

_ Tive fome e me destes de comer – bonito, né!

Se vieres de surpresa, que seja quando estiver participando de um ‘chat’ – aquelas conversinhas através da internet. Além de ser mais legal, é multimídia.

Sugiro ainda que avises o seu representante daqui da região com bastante antecedência, para que ele anuncie na imprensa local, pois sei de muita gente, assim como eu, que gostaria de se preparar para este triunfal encontro.

Certo de que me atenderás,

Cordialmente,

“TRISTÃO”

Aulus Di Toam

quinta-feira, 13 de julho de 2023

Voltando da guerra

A guerra havia terminado e o "Catatau" - como os seus pais o chamavam - estava voltando para casa.

Assim que desembarcou na base aérea da capital, resolveu ligar para seus pais: _Maaaaeeee, Paaaaiiii, eu estou voltando para casa. Vencemos a guerra.

_ Filho, tínhamos certeza disso! Quando o veremos em casa?

_ Ah, antes, eu tenho um pedido a fazer prá vocês! Tenho um amigo que gostaria de levar comigo.

_ Claro, filho, adoraríamos conhecê-lo!

_ Há algo que vocês precisam saber, continuou o filho. Ele foi terrivelmente ferido na guerra: pisou em uma mina e perdeu um braço e uma perna. Ele não tem nenhum lugar para ir e por isso, eu quero que ele venha morar conosco.

_ Sinto muito ouvir isso, filho, nós talvez possamos ajudar a encontrar um lugar para ele morar.

_ Não, eu quero que ele venha morar conosco.

_ Filho, você sabe o que está tá pedindo? Alguém com tanta dificuldade seria um enorme fardo para nós. Nós temos nossas próprias vidas e não podemos deixar que uma coisa como esta interfira em nosso modo de viver. Acho que você deveria voltar para casa e esquecer esse rapaz. Ele encontrará uma maneira de viver por si mesmo.

Naquele momento o filho bateu o telefone.

Os pais não ouviram mais nenhuma notícia do "Catatau".

Alguns dias depois, eles receberam um telefonema da polícia da capital do estado.

O filho deles havia morrido - caiu de um prédio. A polícia acreditava em suicídio. Os pais, angustiados, foram para lá. No necrotério eles o reconheceram, mas para seu horror, acabaram vendo algo que desconheciam: FALTAVAM ALGUNS MEMBROS NO CORPO DO CATATAU. 

E havia um bilhete preso em seu corpo com a seguinte mensagem:

"Papai e Mamãe,

Vocês promovem o amor a alguém bonito, a alguém saudável e a alguém agradável, mas se esquecem do alguém diferente, do alguém que incomoda ou do alguém que desconforta.

Filho de Deus"

Aulus Di Toam

quarta-feira, 14 de junho de 2023

Passa-se este ponto

Por formarmos uma grande comunidade, trabalhamos em uma grande empresa, cujo principal comandante é o nosso pai, que a administra conforme as "Leis dos Céus".

Desde o início de nossa jornada acostumamos a reclamar ao nosso Pai e ele sempre nos mostrou os caminhos para a resolução dos nossos problemas, apesar de muitas vezes insistirmos em não obedecê-lo.

Quando ele precisa chamar nossa atenção sobre alguns desvios em nossos comportamentos, faz uso de mensagens cujo título é sempre antecedido pelo sinal da cruz:

+... José, seja mais humilde para com os seus irmãos.

Quando é identificada qualquer ausência da prática de um fundamento importante, o nosso Pai volta a nos chamar a atenção: +... Sejam mais solidários. Afinal, vocês são ou não irmãos?

Basta um dos meus irmãos sair dos trilhos, e lá vem o nosso Pai lhe chamar a atenção:

+... Beto, preocupe-se se apenas com seu desenvolvimento.

Assim "trabalhamos" e não correspondemos. Apenas reclamamos perante todas as oportunidades que nos são apresentadas.

Há poucos anos atrás, após insistirmos mais uma vez "com os maus resultados de nossa empresa", o nosso Pai enviou-nos o seguinte comunicado:

+... Passa-se este ponto.

E no verso do comunicado, havia a seguinte mensagem:

Ao invés de reclamarem que a coisa tá ruim, por que vocês não sobem aí pra fazer melhor?... Ou me deem apenas uma mãozinha!

Aula Di Toam

terça-feira, 16 de maio de 2023

Por que brilhar?

O seu tio Braz, toda vez que voltava à sua terra natal, fazia questão de visitá-lo.

Aproveitava o tempo lhe ensinando alguma coisa através de pequenas e lindas histórias.

Das histórias que contava, a que o menino mais gostava era sobre a cobra e o vagalume.

E assim ele contava:

"Era uma vez uma cobra que começou a perseguir um vagalume que só vivia para brilhar.

Ele fugia rápido com medo da feroz predadora e a cobra nem pensava em desistir.

Fugiu um dia e ela não desistia, dois dias e nada. No terceiro dia, já sem forças o vagalume parou e disse à cobra:

_ Posso fazer três perguntas?

_ Não costumo abrir esse precedente para ninguém mas já que vou te comer mesmo, pode perguntar - disse a cobra.

_ Faço parte da sua cadeia alimentar?

_ Não.

_ Te fiz alguma coisa?

_ Não.

_ Então porque queres me comer?

_ Porque não suporto ver você brilhar."

"Pense nisso para selecionar as pessoas em quem confiar" - dizia o seu tio Braz. E ainda recomendava que o menino evitasse a divulgação, aos quatros cantos, dos seus atos, que eram, afinal, frutos das suas virtudes.

O tempo passou, o menino cresceu, estudou e saiu para o mundo do trabalho, um pouco longe da sua família.

 Por ter tido uma boa formação - fora criado em um ambiente educacional singular - acostumou-se a "fazer certo as coisas certas".

Ao evoluir profissionalmente começou a sentir na pele a lição do tio Braz.

As cobras não paravam de persegui-lo. E começou a ficar assustado.

Um certo dia resolver atender aos pedidos do tio: escondeu o brilho das suas atitudes e as cobras se perderam.

Hoje, passa pelos mesmos lugares e reconhece todas as cobras - velhas e novas - perseguindo outros sinais luminosos.

Aulus Di Toam 

quinta-feira, 13 de abril de 2023

Quem conheceu os meus pais?

O seus pais foram embora e ele nem os conheceu.

Acostumou-se com eles em casa, sempre esperando, e esqueceu de conhecê-los.

A sua mãe o aguardava, com a sua comida preferida, mas ele não estava nem aí.

Os seus pais acabaram indo embora e ele nem os conheceu.

Agora, com as suas ausências, é que sente a necessidade de tê-los conhecido.

Lembra-se deles apenas em poucas ocasiões.

Um dia, o pai veio até à sua casa e lhe pediu para estar mais próximo deles. Disse que a saudades deles era muito grande; e acabou indo embora rapidamente.

Uma outra vez, sua mãe ligou de tão longe para verificar se estava precisando de alguma coisa. Reconheceu apenas que não deu muita atenção para a velha mãe.

Ele tinha os pais e agora não os tem mais.

A última vez que os viu, foi há muitos anos atrás, quando numa pequena passagem pela velha casa onde nasceu, lhe disseram:

_ Filho, fica um pouquinho com a gente. Queremos conversar com você.

Ele não podia. E nem deixou a sua nova família ficar um tempo maior com eles.

Acabou se tornando um homem muito ocupado e seus pais foram embora e ele não os conheceu.

E agora ele consulta diariamente os velhos amigos dos seus pais para fazer-lhes uma última pergunta:

_ Quem conheceu os meus pais?

Aulus Di Toam

quarta-feira, 15 de março de 2023

No avião


Eu era ainda criança e estava fazendo a minha primeira viagem de avião junto com os meus irmãos.

De repente tudo começou a balançar. Imaginávamos estar em um parque de diversões e dispostos a participar das surpresas daquele tão esperado passeio.

As pessoas ao redor começaram a ficar apavoradas.

Notei que um dos passageiros, no meio de todo aquele tumulto, muito preocupado, nos perguntou:

_ Vocês não tem medo do avião cair?

Exercendo o papel de líder, tomei a frente dos meus irmãos, enchi o peito e respondi com toda a certeza do mundo:

_ Não, o piloto é o meu pai.

Aulus Di Toam


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

A prova final


Dona Fulana se dizia uma senhora voltada para a comunidade e se apresentava a todos como uma pessoa de poderes "especiais".

Um dia, ao se dirigir com o seu carro para uma cidade vizinha, enfrentou um temporal e acabou sendo lançada para fora do veículo em direção a um precipício.

Embora a situação apresentasse possibilidade de salvação, dona Fulana acabou recorrendo ao velho mestre:

_ Meu Deus, me ajude!

Naquele pequeno intervalo de tempo surgiu um enorme teia de aranha na sua frente e Dona Fulana acabou agarrando-a desesperadamente.

Ofegante e não entendendo o que estava se passando, ouviu alguém lhe perguntar:

_ E agora minha filha, acredita que eu existo?

Dona Fulana olhou para os lados e percebeu que estava sozinha. Assustada e confusa respondeu:

_ Claro que acredito, Senhor!

_ Acredita mesmo, filha?

_ Claro, Senhor. Por um milagre acabo de ganhar uma nova chance para viver, como posso não acreditar?

_ Tem certeza de que acredita?

_ Claro, nunca tive tanta certeza em minha vida.

_ Então, se você acredita realmente em mim, solte as mãos dessa teia que eu te pego lá embaixo.

O pessoal daquela pequena comunidade não tem mais visto a dona Fulana; ela se transformou em uma aranha negra. Dizem que o seu paradeiro é desconhecido, mora em algum lugar da estrada, e passa o dia apenas preocupada com a sua teia de aranha.

Aulus Di Toam