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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

O calor e o frio dos outros

Mantenho correspondência por e-mail com algumas pessoas que moram fora de Porto Alegre e fora do Brasil. 

Não há um único e-mail, de ida, ou de volta, em que não se fale rapidamente do tempo. "Aqui está um calor dos infernos". "Pois aqui choveu o dia inteiro e refrescou".

Uma conversa mundana que eu achava típico de pessoas mundanas como eu, mas quando li o livro que traz as cartas que Clarice Lispector trocava com alguns de seus amigos, reparei que 90% delas também continham observações meteorológicas. Por mais filosófico ou intelectual que fosse o teor da carta, sempre havia um momento para falar do sol ou do nublado lá fora. Fico pensando o que significa isso. Que me importa se em Berlim está chovendo ou se no Rio faz 42 graus à sombra, já que não estou de passagem marcada para lá? O que importa para meus amigos forasteiros se em Porto Alegre choveu muito em 2001? Todos os dias chove ou faz sol, está frio ou quente, úmido ou seco, e a cada manhã isso nos parece um fenômeno sobrenatural e espantoso.

Creio que compartilhar as condições climáticas do lugar em que se está é um recurso de aproximação. É uma maneira de nos situar geograficamente, de preparar um cenário visível para quem não está nos enxergando. Lá no hemisfério norte a pessoa está encarangada, congelada e, no entanto, pode nos imaginar bronzeada e suando, vestindo uma leve blusinha de alças. E talvez seja também uma maneira de justificar nosso humor: temos nossas próprias variações de temperatura, somos pessoas nubladas ou ensolaradas, gélidas ou quentes. A meteorologia nos influencia tanto quanto a posição dos astros, e se não estamos muito pra conversa, vai ver é porque tem uma ventania lá fora que está perturbando por dentro também. Não sei se você está lendo este texto na beira da praia ou embrulhado num cobertor. Não sei onde você está. Não sei se há um temporal se armando ou se está um daqueles dias cinza que provocam melancolia na gente. Se eu soubesse, talvez soubesse um pouco de você. É um mistério que a natureza não explica: nossa necessidade de localizar o outro climaticamente. Relatamos em perguntar: você está deprimido hoje? chorando muito? com vontade de cometer uma loucura? com saudades de alguém? Em vez disso, é tão mais fácil: como é que está o tempo aí? 

Aqui, agora, chove, mas acho que vai abrir.

Martha Medeiros - setembro de 2001

Do livro "Felicidade Crônica", págs. 229 e 230

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Depois se vê

Chuva. Nada mais ancestral. Muita água, pouca água, não importa: choverá. Em vários períodos do ano, mais forte, mais fraco: choverá. Em São Paulo, Minas, Rio, Florianópolis. E também na Alemanha, na Nova Zelândia, no Peru. Choveu nos anos 40, chove em 2011, choverá em 2068. Passado, presente e futuro sob uma única nuvem. Só que o país do futuro não pensa no futuro. Somos totalmente refratários à prevenção.

Tudo o que nos acontece de ruim provoca uma chiadeira, vira escândalo nacional - mas depois. Ficamos estarrecidos, mas depois. O antes é um período de tempo que não existe. Investir dinheiro para evitar o que ainda não aconteceu nos soa como panaquice. Se está tudo bem até às 14h30 dessa quarta-feira, por que acreditar que às 14h31 tudo pode mudar? E então não se investe em hospitais até que alguém morra no corredor, não se policia uma rua até que duas adolescentes sejam estupradas, não se contrata salva-vidas até que meia dúzia morra afogada. Somos os reis em tapar buracos, os bambambās em varrer para debaixo do tapete, os retardatários de todas as corridas rumo ao desenvolvimento. Não prevemos nada. Adoramos os astrólogos, mas odiamos pesquisa. Consideramos estupidez gastar dinheiro com tragédias que ainda estão em perspectiva. Só o erro consolidado retém nossa atenção.

A gente se entope de açúcar, não usa fio dental e depois vai tratar a cárie, se sentindo privilegiado por poder pagar um dentista. A gente aplaude a arrogância dos filhos e depois vai pagar a fiança na delegacia. A gente fuma três maços por dia e depois processa a indústria tabagista. A gente corre na estrada a 140 km/h, ultrapassa em faixa contínua e depois suborna o guarda, na melhor das hipóteses. Ou então morre, ou mata - na pior delas.

A gente vota em corrupto, depois desdenha da politica em mesa de bar. A gente joga lixo no meio fio, depois se surpreende em ter a rua alagada. A gente se expõe em todas as redes sociais, depois esbraveja contra os que inva-diram nossa privacidade.

Precisamos de transporte público de qualidade, mas só depois de sediar a Copa do Mundo. A sociedade reclama por profissionais mais gabaritados, mas ninguém investe em professores e em universidades. E os donos de estabelecimentos comerciais só se darão conta de que estão perdendo dinheiro quando descobrirem os pangarés que contrataram para atender seus clientes. Treinamento, nem pensar. Se precisar mesmo, depois.

Precisamos mesmo. De tudo. Só que antes.

Martha Medeiros - 26 de janeiro de 2011

Do livro "Liberdade Crônica", pág. 248 e 249

terça-feira, 18 de agosto de 2026

A fé de uns e de outros

Apoio que as pessoas se manifestem publicamente contra a violência urbana, contra os altos impostos que não são revertidos em benefícios sociais, contra a corrupção, contra a injustiça, contra o descaso com o meio ambiente, enfim, contra tudo o que prejudica o desenvolvimento da sociedade e o bem-estar pessoal de cada um. No entanto, tenho dificuldade de entender a mobilização, geralmente furiosa, contra escolhas particulares que não afetam em nada a vida de ninguém, a não ser os diretamente envolvidos, caso da legalização do casamento gay, que acaba de ser aprovado na Argentina.

Se dois homens ou duas mulheres desejam viver amparados por todos os direitos civis que um casal hétero dispõe, em que isso atrapalha a minha vida ou a sua? Estarão eles matando, roubando, praticando algum crime? No caso de poderem adotar crianças, seria mais saudável elas serem criadas em orfanatos do que num lar afetivo? Ou será que se está temendo que a legalização seja um estímulo para os indecisos? Ora, a homossexualidade faz parte da natureza humana, não é um passatempo, um modismo. É um fato: algumas pessoas se sentem atraídas - e se apaixonam - por parceiros do mesmo sexo. Acontece desde que o mundo é mundo. E se por acaso um filho ou neto nosso tiver essa mesma inclinação, é preferível que ele cresça numa sociedade que não o estigmatize. Ou é lenda que queremos o melhor para nossos filhos?

No entanto, o que a mim parece lógico não passa de um pântano para grande parcela da sociedade, principalmente para os católicos praticantes. Entendo e respeito o incômodo que sentem com a situação, que é contrária às diretrizes do Senhor, mas na minha santa inocência, ainda acredito que religião deveria servir apenas para promover o amor e a paz de espírito. Se for para promover a culpa e decretar que quem é diferente deve arder no fogo do inferno, então que conforto é esse que a religião promete? Não quero a vida eterna ao custo de subjugar quem nunca me fez mal. Prefiro vida com prazo delimitado, porém vivida em harmonia.

Sei que sou uma desastrada em tocar num assunto que deixa meio mundo alterado. Daqui a cinco minutos minha caixa de e-mails estará lotada de ataques, mas me concedam o direito ao idealismo, que estou tentando transmitir com a maior doçura possível: não há nada que faça com que a homossexualidade desapareça como um passe de mágica, ela é inerente a diversos seres humanos e um dia será aceita sem tanto conflito. Só por cima do seu cadáver? Será por cima do cadáver de todos nós, tenha certeza. Claro que ninguém precisa ser conivente com o que lhe choca, mas é mais produtivo batalhar pela erradicação do que torna nossa vida ruim do que se sentir ameaçado por um preconceito, que é algo tão abstrato.

Pode rir, mas acho que acredito mais em Deus do que muito cristão.

Martha Medeiros - 25 de julho de 2010

Do livro "Liberdade Crônica", pág.244 e 245


domingo, 26 de julho de 2026

Vovó é uma uva

A palavra avó nos remete a infância, quando passávamos o domingo numa casa cheirando a comida, com toalhinhas de crochê decorando todos os ambientes e um quarto sempre na penumbra, com móveis de madeira maciça e uma enorme cadeira de balanço, onde cochilava a matriarca. Parece com a casa da sua avó também? Pois guarde esta imagem na lembrança, pois ela não se reproduzirá tão cedo. Já não se fazem mais avós como antigamente

Os estereótipos não são criados do nada: as avós eram assim mesmo, de cabelo branco e óculos pendurados no nariz. Toda família que se preze teve sua Dona Benta, e a imagem é tão forte que até hoje os comerciais de tevê insistem em caracterizar as vovós como senhoras idosas, rechonchudas, com aventais amarrados na cintura, cabelos presos num coque e aquele ar de quem não faz outra coisa na vida a não ser torta de amoras. E os avôs? Seja na televisão ou no rádio, todos têm voz de Papai Noel, enquanto, na realidade, os avôs da nova era estão mais para Mick Jagger, que aliás já tem um neto. Acorde: os avós de hoje não lembram mais das canções de ninar, mas sabem de cor a letra de Satisfaction. Quer dizer que o lobo mau conseguiu engolir nossa vovozinha? As que usavam touquinha e tinham voz rouca foram papadas, sim, meus pêsames. Mas olha agora, o que vemos? Avós de jeans, dirigindo jipes, cabelo pintado, óculos escuros. Avós que trabalham, que viajam, que dão festas, que namoram. Avós que fazem lipo, aeróbica, jogam vôlei na praia e suspiram não pelo Sean Connery, mas pelo Richard Gere. Será que elas sabem pregar um botão? Não custa tentar, mas se a empreitada der errado, não complique. Ela terá o maior prazer em levar a netinha para comprar uma roupa nova no shopping. E o almoço de domingo? Também mudou. As avós de hoje não andam dispostas a engordar nem um grama com macarronadas familiares e muito menos a quebrar suas garras vermelhas lavando panelas. Que tal um buffet frio, muita água mineral e salada de frutas? Combinado, ela entra com a água.

Netos e netas, não se sintam desamparados. As avós de hoje são muito mais participantes. Podem não lembrar direito das histórias de Gulliver e do Gato de Botas, mas têm histórias pessoais tão encantadoras quanto. São mais divertidas e menos preconceituosas. Têm mais saúde e disposição para enfrentar parques, teatrinhos, zoológicos. E o fato de buscarem a eterna juventude não lhes tirou um pingo do afeto que sentem pela terceira geração. Ao contrário: nunca vi tantas avós apaixonadas por seus netos. É um amor enorme, desinteressado, sem o ônus do compromisso, só do prazer. Sempre foi assim, mas agora há um fator novo: hoje as mulheres têm menos filhos, e em consequência, menos netos. Antigamente a família era gigantesca, e não havia memória que chegasse para lembrar no nome de toda a criançada. Hoje são só dois ou três, dá até para providenciar um mini hotelzinho em casa para hospedá-los no final de semana. Tem mais: o limite de idade para engravidar foi muito ampliado, e hoje uma mulher pode ser mãe e avó quase ao mesmo tempo, encurtando as diferenças entre uma e outra. Se por um lado estamos perdendo a imagem romântica da avó que cozinha, faz tricô e tem roseiras no quintal, por outro estamos ganhando uma avó bonitona, que tem o maior orgulho ao falar dos netos para as amigas e que sempre estará disposta a nos dar um colo. Desde que esteja com uma roupa que não amasse, claro.

O amor, que é o que interessa, não mudou. Mas mudaram as avós. Danuza Leão, Baby Consuelo, Constanza Pascolato e tantas outras mulheres que falam gíria, bebem cerveja estão sempre prontas para uma novidade são avós tanto quanto as nossas saudosas velhinhas de casaquinho nos ombros. Atrizes que foram capa da Playboy e tantas outras gatas da tevê também já tem filhos adolescentes que não tardarão a procriar. Passarão, como toda mulher, pela menopausa, pelos osteoporose e por outros distúrbios da idade, mas certamente não aceitarão o papel de uma avó caseira, bordadeira e sem outra ambição que não seja cuidar dos netos. Sempre se disse que a avó era uma segunda mãe. Pois ela nunca esteve tão parecida com a primeira.

Martha Medeiros - novembro de 1995

Do livro "Felicidade Crônica", págs. 157 a 159

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Amigas para Sempre

Uma boa amiga: a melhor coisa que se pode querer, e a mais difícil de encontrar. Mesmo sendo leais, gostando e torcendo pela gente, ninguém é perfeito, e existem umas que às vezes só matando. Exemplo: a que nunca deixa você voar muito alto para evitar desilusões futuras.

Cheia de entusiasmo porque conseguiu aquele trabalho maravilhoso com que sempre sonhou (e já escolhendo no armário os modelitos que vai usar), ouve um "cuidado, quanto mais alto o coqueiro, maior o tombo". Com uma só frase, corta o seu barato, mas que legal!

Em se tratando de namorado novo, o mesmo tipo de incentivo. "Já vi esse filme, e não dou um mês para você enjoar, te conheço." Essa frase tira qualquer um do sério, dá vontade de entrar para um Convento ou para a Máfia, só para produzir um choque, surpreender. Ouvir isso fazendo a sacola para o primeiro fim de semana que vão passar juntos é uma ducha de água gelada, e você não sabe o que te irrita mais: se a pretensão de te conhecer tão bem ou a memória implacável.

Outro tipo torturante é a que te analisa. Quando você telefona aos prantos porque cortou o cabelo além da conta, responde sempre com um "claro, estava tão bonita que não aguentou e teve que se punir". Ela não consegue entender um desejo simples, como querer ficar parecida com Sigourney Weaver, e só porque passou 12 anos num divã, acha que sabe mais do que Freud. Se você está sem vontade de ir à festa, ou diz que adiou a pintura da casa para setembro, responde de bate-pronto: "É a culpa".

Quando, esperando um telefonema, você tira o telefone do gancho para ver se está funcionando (coisa mais do que normal), ela não perdoa e fulmina com um "olha a ansiedade". Para essas, a fogueira de Joana d'Arc é refresco.

A que te adora e se preocupa com todos os seus problemas, costuma fazer esse tipo de pergunta insuportável:

Ele telefonou?

Afinal, Renatinha, passou de ano?

A viagem está de pé?

A butique aceitou o blazer de volta?

Conseguiu o apartamento?

A resposta a todas as perguntas é não, claro, e ela já sabia. A lei de Murphy (para quem não sabe: qualquer situação com alguma chance de não dar certo provavelmente não dará certo) está aí mesmo, e ter que responder te arrasa. Cuca fresca, você já tinha até dado a volta, mas ela consegue te lembrar de tudo que podia ter acontecido de bom e não aconteceu. Em matéria de corte, nem Isabel (a do vôlei) faria melhor.

Tem também a que aconselha, orienta, e sabe, com total segurança, o que vai acontecer se você tomar este ou aquele rumo. E quando por acaso acerta não deixa, jamais, de dizer: "Eu avisei". Haja.

Outro tipo, muito em moda ultimamente: a que não se envolve; ela não perde uma só chance de encaixar frases do tipo "problema seu", "só você pode saber". Se faz a pergunta mais banal, tipo "que vestido ponho hoje, vou de pantera ou de fina?" a resposta costuma ser um "depende, você é quem sabe como está por dentro (ai!), prefiro não opinar". Quando a amiga comum fica cochichando com seu namorado pelos cantos, ela procura ser objetiva: não tira sua razão, mas também não diz o que você mais precisava ouvir naquela hora: que a outra é uma desavergonhada, que isso não se faz, que o fogo do inferno é pouco pra gente dessa laia, que nunca mais vai cumprimentar quando encontrar.

Uma amiga que toma seu partido, que palpita (pouco) só quando perguntada, é tudo o que se quer, e a coisa mais rara de encontrar.

Quem tem uma desse quilate não vai se sentir sozinha, jamais.

Danuza Leão 

Do livro "Danuza, Todo Dia", Capítulo "Ser Humano" págs.168 e 169

quarta-feira, 17 de junho de 2026

O papel higiênico da empregada


Quando a gente é criança, acha que todo mundo é legal, que todo mundo é da paz, e de repente começa a crescer e vai descobrindo que não é bem assim. Eu lembro que, ainda menina, foi um choque descobrir que as pessoas mentiam, enganavam, eram agressivas. Porque aquelas pessoas não eram bandidas: eram colegas de aula, gente conhecida. Eu ficava confusa. Fulana era generosa com os amigos e, ao mesmo tempo, extremamente estúpida com a própria mãe. Beltrana ia à missa todo domingo e nos outros dias remexia na mochila dos colegas para roubar material escolar. Sicrana era sua melhor amiga na terça-feira e na quarta não olhava para a sua cara. Eu chegava em casa, pedia explicações pra família e recebia como resposta: bem-vinda ao mundo.

Eu queria o impossível: olhar para uma pessoa e saber o que poderia esperar dela. Seria uma pessoa do bem? Do mal? Viria a me decepcionar? Todas as pessoas decepcionam, todas cometem erros, mas eu queria encontrar alguma espécie de comportamento que me desse uma pista segura sobre com quem eu estava lidando. Até que certo dia fui na casa de uma colega. De repente, precisei ir ao banheiro. Só havia um no apartamento, e ocupado. Eu estava apertada. Apertadíssima. Minha amiga sugeriu que eu usasse o banheiro da empregada, topei na hora. E lá descobri que o papel higiênico da empregada era diferente do papel usado pelos outros membros da família. Era mais áspero. Parecia uma lixa. Muito mais barato.

Era um costume, e talvez seja até hoje: comprar um tipo de papel higiênico para a família e outro, de pior qualidade, para o banheiro de serviço. Ali estava a pista que eu inocentemente buscava para descobrir a índole das pessoas.

Hoje, adulta, sei que descobrir a índole de alguém é um processo muito mais complexo, mas ainda me surpreendo que algumas pessoas façam certas diferenciações. O relacionamento entre empregados e patrões ainda é uma maneira de se perceber como certos preconceitos seguem bem firmes. Não é por economia que se compra papel higiênico mais barato para a empregada, por mais que seja esse o argumento usado por quem o faz. É para segmentar as castas. É para manter a hierarquia. É pela manutenção do poder.

As pessoas querem tanto acabar com as injustiças sociais e às vezes não conseguem mudar pequenas regras dentro da sua própria casa. Cada um de nós tem um potencial revolucionário, que pode se manifestar através de pequenos gestos. Comprar o mesmo papel higiênico para todos, quem diria, também é uma maneira de lutar por um mundo melhor.

Martha Medeiros - 30 de novembro de 2003

Do livro "Liberdade Crônica", pág.231 e 232

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Na terra do se

Se quem luta por um mundo melhor soubesse que toda revolução começa por revolucionar antes a si próprio.

Se aqueles que vivem intoxicando sua família e seus amigos com reclamações fechassem um pouco a boca e abrissem suas cabeças, reconhecendo que são responsáveis por tudo o que lhes acontece.

Se as diferenças fossem aceitas naturalmente e só nos defendêssemos contra quem nos faz mal.

Se todas as religiões fossem fiéis a seus preceitos, enaltecendo apenas o amor e a paz, sem se envolver com as escolhas particulares de seus devotos.

Se a gente percebesse que tudo o que é feito em nome do amor (e isso não inclui o ciúme e a posse) tem cem por cento de chance de gerar boas reações e resultados positivos.

Se as pessoas fossem seguras o suficiente para tolerar opiniões contrárias às suas sem precisar agredir e despejar sua raiva.

Se fôssemos mais divertidos para nos vestir e mobiliar nossa casa, e menos reféns de convencionalismos.

Se não tivéssemos tanto medo da solidão e não fizéssemos tanta besteira para evitá-la.

Se todos lessem bons livros.

Se as pessoas soubessem que quase sempre vale mais a pena gastar dinheiro com coisas que não vão para dentro dos armários, como viagens, filmes e festas para celebrar a vida.

Se valorizássemos o cachorro-quente tanto quanto o caviar.

Se mudássemos o foco e concluíssemos que infelicidade não existe, o que existe são apenas momentos infelizes.

Se percebéssemos a diferença entre ter uma vida sensacional e uma vida sensacionalista.

Se acreditássemos que uma pessoa é sempre mais valiosa do que uma instituição: é a instituição que deve servir a ela, e não o contrário.

Se quem não tem bom humor reconhecesse sua falta e fizesse dessa busca a mais importante da sua vida.

Se as pessoas não se manifestassem agressivamente contra tudo só para tentar provar que são inteligentes.

Se em vez de lutar para não envelhecer, lutássemos para não emburrecer.

Se.

Martha Medeiros - 19 de setembro de 2010

Do livro "Liberdade Crônica", pág. 246 e 247

quinta-feira, 23 de abril de 2026

O dono do livro

Escutei outro dia um fato engraçado contado pelo escritor moçambicano Mia Couto. Ele disse que certa vez chegou em casa no fim do dia, já havia anoitecido, quando um garoto humilde de 16 anos o esperava sentado no muro. O garoto estava com um dos braços para trás, o que perturbou o escritor, que imaginou que pudesse ser assaltado. Mas logo o menino mostrou o que tinha em mãos: um livro do próprio Mia Couto. "Esse livro é seu?", perguntou o menino. "Sim", respondeu o escritor. "Vim devolver." O garoto explicou que horas antes estava na rua quando viu uma moça com aquele livro nas mãos, cuja capa trazia a foto do autor. O garoto reconheceu Mia Couto pelas fotos que já havia visto em jornais. Então perguntou para a moça: "Esse livro é do Mia Couto?". Ela respondeu: “É". E o garoto mais que ligeiro tirou o livro das mãos dela e correu para a casa do escritor para fazer a boa ação de devolver a obra ao verdadeiro dono.

Uma história assim pode acontecer em qualquer país habitado por pessoas que ainda não estejam familiarizadas com livros - aqui no Brasil, inclusive. De quem é o livro? A resposta não é a mesma de quando se pergunta quem escreveu o livro. O autor é quem escreve, mas o livro é de quem lê, e isso de uma forma muito mais abrangente do que o conceito de propriedade privada. O livro é de quem lê, mesmo quando foi retirado de uma biblioteca, mesmo que seja emprestado, mesmo que tenha sido encontrado num banco de praça. O livro é de quem tem acesso às suas páginas e através delas consegue imaginar os personagens, os cenários, a voz e o jeito com que se movimentam. São do leitor as sensações provocadas, a tristeza, a euforia, o medo, o espanto, tudo o que é transmitido pelo autor, mas que reflete em quem lê de uma forma muito pessoal. É do leitor o prazer. E do leitor a identificação. É do leitor o aprendizado. É do leitor o livro. 

Dias atrás gravei um depoimento para o rádio em que falo aos leitores exatamente isso: os meus livros são os seus livros. E são, de fato. Não existe livro sem leitor. Não existe. É um objeto fantasma que não serve pra nada.

Aquele garoto de Moçambique não vê assim. Para ele, o livro é de quem traz o nome estampado na capa, como se isso sinalizasse o direito de posse. Não tem ideia de como se dá o processo todo, possivelmente nunca entrou numa livraria, nem sabe o que significa tiragem. Mas, em seu desengano, teve a gentileza de tentar colocar as coisas em seu devido lugar, mesmo que para isso tenha roubado o livro de uma garota sem perceber. Ela era a dona do livro. E deve ter ficado estupefata. Um fã do Mia Couto afanou seu exemplar. Não levou o celular, a carteira, só quis o livro. Um danado de um amante da literatura, deve ter pensado ela. Assim são as histórias escritas também pela vida, interpretadas a seu modo por cada um.

Martha Medeiros - 06 de novembro de 2011

Do livro "Liberdade Crônica", pág. 254 e 255

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Oração do Zé

No interior de Minas Gerais, vivia um homem que se chamava José. Todos os dias antes de trabalhar na lavoura ele passava na igreja local, entrava, ia ao sacrário e se ajoelhava. Depois saía para trabalhar.

Todos os dias lá estava ele, fazendo o mesmo ritual, entrava se ajoelhava e ia embora. O padre que observava sua atitude, foi perguntar porque rezava tão rápido, e a resposta foi imediata: "Eu não sei ler nem escrever. Não conheço as orações que vocês conhecem e muito menos sei falar as palavras bonitas que falam. Eu somente chego aqui em frente, olho para Ele e digo: Jesus, aqui é o Zé".

E assim se passaram anos e anos até que um dia Zé não apareceu. Depois de uma semana, o padre preocupado procurando saber notícias do Zé, descobriu que ele havia sido atropelado e estava internado no hospital.

O padre foi então visitá-lo, mas antes procurou uma enfermeira para saber como ele estava.

"O Zé está muito bem! O impressionante é que desde que ele chegou aqui todos estão muito felizes e se recuperando mais!".

O padre entrou em seu quarto e perguntou: "Zé, o que você fez para motivar todos aqui?".

"Eu não fiz nada, é a visita que eu recebo todos os dias", respondeu. O padre sabia que ele não tinha família, amigos ou pessoas que se preocupassem com ele, mas ainda assim perguntou:

"Que visita tão maravilhosa é essa?"

Com um grande sorriso no rosto ele respondeu:

"Todos os dias exatamente no horário em que eu ia à igreja, Jesus chega bem perto da minha cama e diz: Zé, aqui é Jesus."


terça-feira, 17 de março de 2026

Mais tempo para viver

Um velho rei da Índia condenou um homem à morte. O homem implorou que a sentença fosse comutada e acrescentou:

_Se o rei for misericordioso e poupar-me a vida, dentro de um ano ensinarei seu cavalo a voar.

_Combinado - disse o rei. – Mas, se no fim desse período o cavalo não souber voar, você será executado.

Quando, mais tarde, cheia de ansiedade, a família do homem perguntou-lhe como planejava obter sucesso, ele respondeu:

_No decorrer de um ano, pode ser que o rei morra, ou que o cavalo morra, ou, quem sabe, que o cavalo até aprenda a voar...


domingo, 8 de março de 2026

Belíssimas

Já li muitos comentários positivos a respeito de Belíssima. O que ainda não li foi comentários sobre a abertura da novela. Ou talvez tenha me escapado.

O tema da abertura: a beleza feminina. A música: Você é linda, de Caetano Veloso. Tinha tudo para ser um festival de bom gosto, no entanto, há controvérsias. Se não há, olha eu aqui inaugurando uma.

A modelo que aparece de maiô, sabemos, tem um rosto perfeito: pena que pouco apareça. Em evidência, apenas aquele amontoado de ossos. Coxas quase da mesma espessura dos tornozelos e braços que mais parecem gravetos. Entre a pele e as costelas, onde foi parar o recheio?

Pode ter sido apenas um problema de iluminação ou de recorte, mas o resultado que nos é mostrado há meses, todas as noites, é o raquitismo como sinônimo de perfeição estética.

Hoje é o Dia Internacional da Mulher, que na prática não ajuda a mudar muita coisa, mas ao menos serve para reflexões, debates e crônicas temáticas. O que valeria a pena discutir hoje? Proponho um assunto sem relevância política, mas igualmente importante: o recheio. Tudo o que temos retirado de nós, tudo o que tem sido lipoaspirado de nossas vidas.

Já fomos mais silenciosas. Mas, ao ganhar o direito à voz, nos tornamos mulheres aflitas, que não se permitem um momento de quietude. Falamos, falamos, falamos compulsivamente, como se fosse contraindicado guardar-se um pouco, como se o silêncio pudesse nos inchar.

Já sofremos com mais pudor. Hoje nossas depréssão extravasadas, distribuídas, ofertadas, viram capa de revista, como se a dor fosse uma inimiga a ser despejada, como se o sofrimento fosse algo venenoso e necessitasse de expulsão, como se não valesse a pena alimentar-se dele e através dele crescer.

Já fomos mães mais atentas, que geravam por mais tempo, por bem mais do que nove meses. Levávamos os filhos dentro de nossas vidas por longos anos. Hoje temos mais pressa em entregá-los para o mundo, a responsabilidade pesa, e como peso é tudo o que não queremos, acabamos por nos aliviar dos compromissos severos de toda educação.

Já fomos mais românticas. Hoje o sexo é mais importante, queima calorias, melhora a pele e não duvido que um coração vazio também ajude na hora de subir na balança.

Por um lado, conquistamos tanto, e, por outro, estamos nos esvaziando, querendo tudo rápido demais e abrindo mão de aproveitar o que a vida tem de melhor: o sabor, o gosto. Calma, meninas. Amor não engorda. Discrição não engorda. Reflexão não engorda. Não é preciso se agitar tanto, correr tanto, falar tanto, brigar tanto, nada disso é exercício aeróbico, é apenas tensão. Nesse ritmo, perderemos a beleza da feminilidade e acabaremos secas não só por fora, mas por dentro também.

Martha Medeiros – 08 de março de 2006.

Do livro “Liberdade Crônica”, pág. 30 e 32 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A turma do dããã

Tenho observado esse pessoal faz um tempo. Eles me provocam reações diversas: sinto repulsa, sinto medo, sinto desânimo, mas acho que a sensação que prevalece é mesmo a compaixão. Porque eles são tão recalcados que não conseguem se manifestar no mundo de outra forma. A única coisa que possuem para exibir é isso: seu espírito de porco.

Não é um defeito novo, mas ganhou um espaço de divulgação inimaginável na internet. Se antes eles exerciam seu espírito de porco em pequenos grupos, em comentários ferinos para meia dúzia de ouvidos, agora eles abusam da sua tolice em rede internacional para um público tão amplo que os deixa embriagados com o alcance atingido. Eles são os neorretardados, os pusilânimes de grande escala.

Se você é uma pessoa de discernimento, que seleciona a informação que obtém, talvez ainda não tenha se deparado com eles. Sorte sua. Mas se tiver curiosidade de saber como a coisa funciona, entre em qualquer site de notícias e dê uma olhada nos comentários deixados. É de perder a esperança num mundo mais elegante.

Para exemplificar: nas últimas semanas um site colocou no ar duas notícias de segunda linha, que não chegaram a repercutir mais do que poucas horas. Uma delas era sobre uma garota de dezoito anos que se jogou da Torre Eiffel, em Paris. Chegaram a dizer que sería uma brasileira, mas era uma africana. Em poucos minutos, essa notícia gerou 1.581 comentários de gente lesada das ideias, cujo único prazer é fazer piadinha sobre a dor alheia, sem conseguir articular um raciocínio lógico. Pessoas que têm na agressividade sua única forma de expressão. Foram 1.581 comentários que deixam claro a quantidade de infelizes espalhados por todos os cantos. Porque o espírito de porco nada mais é do que uma exposição despudorada de infelicidade. Como o cara não se suporta, detona com tudo o que vê pela frente.

No mesmo dia desse suicídio, foi noticiada tam-bém a estreia da primeira gondoleira de Veneza. Depois de séculos de hegemonia masculina, agora há uma mulher conduzindo turistas nas gondolas da mais deslumbrante cidade italiana. Fato que não mobiliza o mundo como a morte de Michael Jackson, mas é uma informação curiosa e simpática, que poderia gerar saudações a mais este espaço conquistado pelas mulheres, ou ser simplesmente ignorada, o que também é legítimo. Mas não. Os espíritos de porco, sem ter nada mais produtivo pra fazer, deixaram registradas suas manifestações de preconceito, numa exibição constrangedora de estreiteza mental. Porque o espírito de porco não é apenas uma pessoa com o humor mal-lapidado. Ele é um ignorante com empáfia.

Se fossem poucos, nada a temer. Mas a tacanhice é uma epidemia bem mais assustadora do que qualquer gripe. Porque não é temporária e tampouco tem cura. É o retrato do isolamento e da deseducação de uma geração que, ao ter um teclado à disposição e o anonimato garantido, expõe toda sua miséria intelectual e afetiva. É a turma do "dāāā" ganhando voz e propagando a mediocridade universal. 

Martha Medeiros - 05 de agosto de 2009

Do livro "Liberdade Crônica", pág. 241 a 243

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Levando uma vida simples e sem ostentação

Ao partir para uma longa viagem, o superior do mosteiro deu aos monges a seguinte recomendação:

_ Cuidem de nosso mosteiro com carinho e austeridade, lembrando-se sempre de levar uma vida simples, respeitando o nosso voto de ter apenas o necessário para nossa subsistência.

Nesse espírito de pobreza, cada monge possua nada mais do que uma túnica e um par de sandálias. Nem bem o superior havia partido e o mosteiro foi atacado por uma praga de ratos vorazes, que roíam tudo o que encontravam pela frente, não lhes escapando sequer as túnicas e as sandálias, únicas posses dos pobres monges.

_Precisamos arranjar uns gatos - disse um dos monges, obtendo imediatamente a aprovação de todos para sua ideia.

Os gatos estavam vencendo os ratos, mas tomavam muito leite.

Assim, um dos monges sugeriu:

_Seria muito bom se tivéssemos uma vaca... E novamente todos concordaram com a ideia.

 A vaca fornecia leite com abundância aos gatos, mas também precisava comer. Por isso, os monges resolveram formar um pasto, que para ser plantado e mantido precisou de adubo e ferramentas, que eles providenciaram junto com um paiol que tiveram que construir para armazenar as colheitas e um estábulo para cavalos que conseguiram para puxar os arados e fazer os transportes...

Passaram-se longos anos, e um dia o superior voltou. No local onde julgava estar o mosteiro, pareceu-lhe ser agora uma próspera fazenda, com um vasto rebanho e muitas plantações.

O superior aproximou-se da cerca e perguntou a alguém que estava por ali trabalhando se ele sabe onde ficava o mosteiro. Ele disse que não sabia do que se tratava, mas ofereceu-se para conduzi-lo até a administração da fazenda, onde certamente poderiam lhe dar alguma informação. Ao chegar à imponente construção onde ficava a sede da fazenda, o superior imediatamente reconheceu um dos seus antigos monges e foi logo dizendo:

_Mas o que vem a ser isso tudo? O que foi que vocês fizeram do nosso mosteiro? Eu não lhes recomendei que levassem uma vida simples e sem ostentação, tendo apenas o necessário para sua subsistência?

_Sim, mestre, sim, e era exatamente isso que estávamos fazendo. Mas aí os ratos apareceram...


quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Indo até Deus

Um dia um homem foi ao barbeiro. Enquanto seus cabelos eram cortados, conversava com o barbeiro. Falava da vida e de Deus. Daí a pouco, o barbeiro, incrédulo, não aguentou e lhe disse:

_  Deixe disso, meu caro. Deus não existe.

_ Por quê ?

_ Se Deus existisse, não haveria tantos doentes, mendigos, pobres... Olhe à sua volta e veja quanta tristeza. É só andar pelas ruas e enxergar.

 _ Bem, essa é a sua maneira de pensar, não é?

_  Sim, claro.

_ Pois bem.

 O freguês pagou o corte e foi saindo, quando avistou imediatamente um maltrapilho imundo, com longos cabelos, barba desgrenhada, suja e abaixo do pescoço. Não aguentou, deu meia-volta e interpelou o barbeiro:

_ Sabe, não acredito em barbeiros.

_ Como assim?

_  Se existissem barbeiros, não haveria pessoas de cabelos e barbas compridas.

_ Ora, existem tais pessoas porque evidentemente não vêm a mim, não vão ao barbeiro. Eu não tenho culpa.

_ Ah... Agora eu entendi por que você não acredita em Deus.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Profissão de Futuro

Houve um tempo em que quando se perguntava a uma criança o que ela queria ser quando crescesse, a resposta variava entre artista de cinema, médico ou aviador. Anos depois, a moda era a arquitetura; depois veio economia, administração de empresas, isso para não falar do sonho eterno: ser funcionário público.

Na década de 80, a meta suprema era ser cantor de rock ou ator da Globo, mas agora já se sabe: ser deputado é apenas a melhor coisa do mundo. Poder, dinheiro, notoriedade, um futuro pra lá de garantido (aposentadoria com oito anos de casa), quem não quer? A grande dúvida: federal ou estadual? Estadual é joia; não faz o sacrifício de trabalhar de terça a quinta (e em Brasília), e sem ninguém para controlar a frequência ao trabalho, dá até para pegar uma praia. Perde o auxílio-moradia, mas tem o privilégio de morar na cidade mais bonita do mundo, e cada vantagem de dar gosto. No momento estão todos de carro novo, zerinho, com chapa fria e lugar privativo para estacionar em plena Santa Clara (motorista e 500 litros de gasolina por mês); melhor, impossível.

Para os que gostam de usar terno e gravata, uma verba especial para cuidar da elegância; eles pensam em tudo. Quem faz o gênero mais esportivo resolve com uma boa camisa desabotoada, o peito à mostra (sem precisar abrir mão da tal verba especial, é bom lembrar). Vai chegar o dia em que estarão todos de bermuda, sandália modelito Joãozinho Malta, eles merecem.

Deputados, sobretudo os federais, são vistos frequentemente à tarde em programas de televisão, sob o pretexto de divulgar as ideias do partido; mas bater papo a tarde inteira, sentado entre um ginecologista e uma cantora, será que tem a ver?

Brasília oferece a vantagem das viagens internacionais. O senador Ney Maranhão só a Paris já foi 35 vezes e à China 5, tem melhor? Eles viajam muito e sempre em grupo para se inteirar do problema da aftosa na Índia, da condição dos drogados em Bruxelas, do cultivo da beterraba em Bangcoc; quando o itinerário interessa, levam as esposas, e alguns privilegiados conseguem integrar a delegação do Brasil na ONU.

São três meses no bem-bom, com passaporte vermelho, primeira classe, diárias altíssimas, assistência médica, dentária, telefone pago, e o direito de contratar um monte de assessores - dá pra arrumar a família toda - com salários maravilhosos. Aumentam os seus próprios, a imprensa chia e continua tudo exatamente igual. E melhor que tudo, exercem o belo sentimento da solidariedade: podem cometer qualquer tipo de crime, que dificilmente serão processados.

O que fazer para ser eleito? No Rio é fundamental ter um bom pé no futebol, no samba, em rádio/televisão. Se tiver trânsito em todas essas áreas, está resolvido.

Esta semana, o Congresso Nacional previu uma despesa de 3,2 milhões de dólares para viagens de parlamentares ao exterior. Oh, dúvida cruel: federal ou estadual?

Mas nada é perfeito, e hoje em dia, tiradas as honrosas exceções, confessar que é deputado está pegando mal. E se os ilustres não se mancarem, dentro de muito pouco tempo, quando alguém quiser ofender uma pessoa basta apontar, falando bem alto: "não adianta negar, você é deputado sim, posso provar". Melhor sair de perto, vai ter gente querendo linchar.

Sinceramente: você deixaria sua filha namorar um?

Danuza Leão 

Do livro "Danuza, Todo Dia", Capítulo "De Tudo Um Pouco" págs.241 e 242

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Todo o resto

"Existe o certo, o errado e todo o resto". Esta é uma frase dita pelo ator Daniel Oliveira representando Cazuza, em conversa com o pai, numa cena que, a meu ver, resume o espírito do filme que esteve em cartaz até pouco tempo. Aliás, resume a vida.

Certo e errado são convenções que se confirmam com meia dúzia de atitudes. Certo é ser gentil, respeitar os mais velhos, seguir uma dieta balanceada, dormir oito horas por dia, lembrar dos aniversários, trabalhar, estudar, casar e ter filhos, certo é morrer bem velho e com o dever cumprido. Errado é dar calote, repetir o ano, beber demais, fumar, se drogar, não programar um futuro decente, dar saltos sem rede. Todo mundo de acordo?

Todo mundo teoricamente de acordo, porém a vida não é feita de teorias. E o resto? E tudo aquilo que a gente mal consegue verbalizar, de tão intenso? Desejos, impulsos, fantasias, emoções. Ora, meia dúzia de normas preestabelecidas não dão conta do recado. Impossível enquadrar o que lateja, o que arde, o que grita dentro de nós.

Somos maduros e ao mesmo tempo infantis, por trás do nosso autocontrole há um desespero infernal. Possuímos uma criatividade insuspeita: inventamos músicas, amores e problemas, e somos curiosos, queremos espiar pelo buraco da fechadura do mundo para descobrir o que não nos contaram. Todo o resto.

O amor é certo, o ódio é errado e o resto é uma montanha de outros sentimentos, uma solidão gigantesca, muita confusão, desassossego, saudades cortantes, necessidade de afeto e urgências sexuais que não se adaptam às regras do bom comportamento. Há bilhetes guardados no fundo das gavetas que contariam outra versão da nossa história, caso viessem a público.

Todo o resto é o que nos assombra: as escolhas não feitas, os beijos não dados, as decisões não tomadas, os mandamentos que não obedecemos, ou que obedecemos bem demais - a troco de que fomos tão bonzinhos?

Há o certo, o errado e aquilo que nos dá medo, que nos atrai, que nos sufoca, que nos entorpece. O certo é ser magro, bonito, rico e educado, o errado é ser gordo, feio, pobre e analfabeto, e o resto nada tem a ver com estes reducionismos: é nossa fome por ideias novas, é nosso rosto que se transforma com o tempo, são nossas cicatrizes de estimação, nossos erros e desilusões.

Todo o resto é muito mais vasto. É nossa porra-louquice, nossa ausência de certezas, nossos silêncios inquisidores, a pureza e inocência que se mantém vivas dentro de nós, mas que ninguém percebe, só porque crescemos. A maturidade é um álibi frágil. Seguimos com uma alma de criança que finge saber direitinho tudo o que deve ser feito, mas que no fundo entende muito pouco sobre as engrenagens do mundo. Todo o resto é tudo que ninguém aplaude e ninguém vaia, porque ninguém vê.

Martha Medeiros - 26 de setembro de 2004

Do livro “Liberdade Crônica”, pág. 199 e 200

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Tempos Difíceis

O que se gasta de tempo e dinheiro para conseguir as duas coisas mais importantes no mundo de hoje: beleza e saúde (de juventude, nem se fala). Tem novidade o tempo todo, e quem gosta de saber o que está acontecendo tem que estar sempre ligado. Existem inúmeras correntes, umas mais tradicionais, outras mais moderninhas, e não é fácil saber qual seguir, até porque elas entram e saem da moda o tempo todo. Quem entra numa dessas ondas tenta convencer os outros a entrar também, para não se sentirem tão sós. Não tenha dúvida, é preciso muito homem para ser uma mulher bonita.

A guerra começa cedo, e que ninguém pense em sair de casa sem filtro solar no rosto e nos braços: "até para ir à feira", diz o dermatologista (um frasco pequeno custa mais do que uma cesta básica). Ginástica, vai ter que escolher entre aeróbica, musculação ou alongamento, já sabendo que qualquer das três tem seus prós e seus contras. Na hora do banho, mais uma novidade: é proibido ensaboar. Ah, não sabia? pois é a última, sabonete faz mal à pele, vê se pode. Depois os cremes, montes de cremes, um para cada lugar do corpo; um para a perna esquerda, outro para a direita, para o calcanhar, para os cotovelos, gotas de óleo de visom em volta dos olhos, antirrugas em volta da boca, e uma loção especial para passar entre os dedos dos pés. Como a vida devia ser fácil quando as mulheres só usavam Leite de Rosas e pó de arroz, e o tempo sobrava para estudar piano e ter aulas de francês.

Mas vamos lá, os cabelos. Massagem de óleo de amêndoas, ovo cru, cerveja (teve uma que passou tutano, amarrou um lenço e foi para a praia. Teve que voltar com os cachorros correndo e latindo em volta até entrar no edifício). E a saúde, quem pode ser bela se não for saudável? É aí que começam os grandes problemas.

O café da manhã. Cereais, passas, coalhada (não industrializada, claro); açúcar branco, nem pensar. Aquele cigarro depois do café, lendo o jornal, acompanhando as últimas do Congresso, só se for louca. E prestando atenção o tempo todo à respiração, é importantíssimo. Falar no telefone, será que pode? Falando em alimentação, adeus, churrascarias. Costelas com aquela gordurinha dourada, nunca mais; carne de porco, um veneno e frituras, nem pensar.

Coma vegetais (mas cuidado com os agrotóxicos); e no dia do aniversário está autorizada a beliscar um peitinho de frango sem pele, ou um peixinho magro, cozido no vapor. Carne e leite, só de soja, e se brigar com o namorado, 14 dias comendo arroz integral, purifica o corpo e a mente. Há quem ache que não se deve manter qualquer tipo de relação com esse tipo de gente, mas não vamos exagerar, dá para dizer bom-dia. Nos dias santos e feriados.

Se tiver uma dor lancinante, sofrer uma hemorragia ou um princípio de infarto, a última coisa que deve fazer é procurar um médico, só acupunturistas e homeopatas são permitidos. Os bebês devem nascer dentro da água (salgada) ou debaixo de um coqueiro, tudo pela natureza. E se houver qualquer problema, tipo a criança se enforcando no cordão umbilical ou a mãe urrando por falta de dilatação durante 72 horas, vale tudo, menos cesariana. E vacina não pode, quebra a imunidade natural.

Difícil é se vestir. Sapato de couro não deve, e o de plástico não é biodegradável; a coisa aparentemente mais simples, uma mesa e quatro cadeiras, significa uma árvore a menos na natureza, e se sair com o carro para trabalhar está contribuindo para a poluição do planeta. Mas ninguém explica como passar pelo cais do porto e chegar à Avenida Brasil de bicicleta sem ser assassinada. Transar, já viu.

Já foi bem mais fácil e gostoso viver, sabia?

Danuza Leão

Do livro "Danuza, Todo dia", Capítulo "Sociedade" págs. 187 e 188

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Melhorar para pior

Li esta expressão, "melhorar para pior", na biografia Viver para contar, do escritor Gabriel García Márquez, num trecho em que, se bem me lembro e não lembro bem -, ele falava que havia deixado sua casa para morar num prédio e trocado as sandálias por sapatos. Se não foi assim, o exemplo igualmente serve.

De imediato, lembro de Bombinhas, uma praia de Santa Catarina. A primeira vez em que lá passei um verão, havia apenas casas de pescadores à beira-mar, um mercadinho precário e um único quiosque de madeira onde serviam camarões e caipirinhas a um preço ridículo. Posto de saúde, só na vila de Porto Belo. Naquela época, janeiro de 1980, se contássemos todos os guarda-sóis fincados na areia, não somariam 25. Hoje Bombinhas tem cybercafé, edifícios, minishoppings, asfalto e vários restaurantes de rodízio de frutos do mar com estacionamento. Se contássemos os guarda-sóis fincados na praia, somariam uns 1.843. Ô, se melhorou.

Outro dia vi uma ex-colega do colégio que tinha paixão por vôlei, jogava muito bem, era bonita, saudável, sempre de tênis, roupas esportivas, diurna, alegre. Hoje trabalha de recepcionista num restaurante, vive trancafiada num blazer risca de giz, de salto alto, dormindo todo dia às 3 da manhã. Tem um bom emprego, não se queixa. Melhorou, sem dúvida.

Bares também melhoram. Nascem botecos pequenos, com cadeiras de palhinha, mesas de madeira, clientela fiel e um garçom que todos chamam pelo nome - Genésio. tira aí um bem gelado! Aí o dono ganha dinheiro, resolve investir, troca a iluminação, o piso, amplia o espaço, incrementa o cardápio, compra umas cadeiras de acrílico, pendura uns alto-falantes na parede, nossa, é outro bar.

Casamento nada mais é do que a evolução do namoro, aquela época de dureza em que o casal passava o final de semana acampando e, de tão apaixonados, sentiam-se hóspedes de um hotel cinco estrelas. Aquela época em que o dia era curto demais para tanta conversa, e a noite, curta demais para todo o resto. Aquela época de palpitações e impaciências. Depois melhora, ou não?

Impossível deter o desenvolvimento de lugares e pessoas. Puro exercício de nostalgia esta crônica. Mas é que fiquei com esta história de "melhorar para pior" na cabeça, tentando detectar o que significa isso, e se bem entendi, melhorar para pior é quando se perde a alma. Se conseguirmos evoluir e ao mesmo tempo manter a alma intacta, aí é o nirvana: melhorar para melhor.

Martha Medeiros - 30 de maio de 2004

Do livro “Liberdade Crônica”, pág.197 e 198

sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Os Telefonemas

Você chega em casa do trabalho e encontra um monte de recados na secretária eletrônica. Como conhece bem a vida e é observadora, nem precisa ligar para saber do que se trata: as pessoas não mudam.

Tem a que quando telefona é sempre para pedir alguma coisa. Uma informação, um vestido emprestado, o endereço de uma costureira a quem você se referiu 30 anos atrás, o que for, mas sempre, sempre um pedido, ou melhor: um aluguel. Quando você ouve a voz na máquina já sabe e se não ligar de volta, está mais do que perdoada. Deveria, pelo menos.

A outra só liga para contar problemas: da empregada que não veio trabalhar na segunda-feira à filha que foi estudar na Europa e não dá sinal de vida, a não ser para pedir dinheiro; passa por todos, até chegar ao principal: o sentimental.

É preciso ter tempo sobrando para ouvir, sem gritar: "você acha que quando ele me largou na festa sozinha e saiu com aquela piranha era o quê? insegurança?" E você, responde o quê? para ter paz, o que ela quer ouvir, isto é: "insegurança infantil, claro. Ele é louco por você, mas tem medo, porque você é uma mulher muito forte". Pronto: ela fica feliz, e você ainda tem tempo de ver aquele filme na televisão.

Tem também a outra que só chama para te agredir, com tantas felicidades. Na vida dela tudo está dando certo: o homem é maravilhoso, os filhos são divinos, ganhou uma ilha em Angra, vai passar o Natal no Egito cara a cara com uma pirâmide; enquanto fala estraçalha uma caixa de chocolates, e ainda diz que pode comer o que quiser que não engorda, a idiota. Para conseguir desligar rápido, um método infalível: pedir dez mil dólares emprestados, já que ela está tão bem de vida. O papo acaba na hora.

E tem a da psicanálise, que conta a sessão que teve no analista, entrando nos detalhes mais íntimos da infância dos pais e dos avós, o que explica por que seus relacionamentos nunca dão certo. Essa é das boas, e só fingindo que a linha caiu.

Nesse caso, por precaução, deixe o fone fora do gancho até a manhã seguinte. A outra é a encarnação da bondade e, como não quer incomodar, deixa recados enormes dizendo que o motorista vai levar um prato de docinhos que só a empregada dela sabe fazer, aqueles que você adora tanto. Como nasceu para servir, já adianta: sabe que você é muito ocupada, por isso nem se incomode de telefonar para agradecer. Para ela, saber que você ficou feliz já a faz feliz. De matar, essa.

Raras são as que telefonam só para dizer que viram um filme que acham que é a sua cara e aí sentiram saudades; com essas a conversa rola legal - você conta suas coisas, elas contam as delas, se despedem com afeto, prazer, e sobretudo sem aquele "precisamos nos ver - quando é que a gente vai almoçar?" Esse almoço dificilmente vai acontecer - e as duas sabem disso.

E tem aquela que liga e quando ouve a sua mensagem desliga. Você sabe perfeitamente quem é, e sabe também que ela vai ligar de novo até você atender - você -, e não a máquina.

Por que as pessoas são sempre iguais?

Danuza Leão 

Do livro "Danuza, Todo Dia",  Capítulo "Cotidiano" págs. 41 e 42

quarta-feira, 20 de agosto de 2025

Prosopagnosia

Eu estava na fila do cinema, e ela dois passos à frente. Ela virava para trás, me olhava, e logo virava para frente de novo. Até que numa dessas viradas ela disse "oi". Eu retribuí: "oi". Ela: "É isso aí, tu não me conhece, mas eu te conheço: tem que cumprimentar".

Eu sei, amiga.

Leitores me cumprimentam sem que eu os conheça, e tudo certo, já que há uma foto minha ao lado da coluna do jornal. Só se torna um problema quando eu realmente conheço a pessoa que me cumprimenta, já conversei com ela em algum momento da vida, e não faço ideia de quem seja. Escrevi certa vez sobre isso: se a pessoa é a recepcionista da minha médica, e sempre a vejo de coque e de uniforme branco, ao passar por mim de vestido floreado e cabeleira solta num shopping, não vou reconhecê-la. Se o sujeito com quem cruzo na academia, sempre de calção e camiseta, entrar no restaurante de camisa polo e um blusão amarrado em torno do pescoço, não vou reconhecê-lo. Se o porteiro do meu prédio for filmado na arquibancada de um estádio vestindo a camiseta do seu time e segurando um cartaz dizendo "Olha eu aqui, Galvão", periga o Galvão saber quem é: eu, não. Tenho uma incapacidade crônica de identificar pessoas fora do habitat em que costumo encontrá-las.

Sempre me justifiquei dizendo "sou péssima fisionomista", que é um chavão, mas não é mentira, e que, aliado aos meus três graus de astigmatismo, me garantia o perdão de algumas boas almas. Até que outro dia entrei numa loja de conveniências, um cara abriu os braços ao me ver e disse numa alegria comovente: "Marthinha!". Achei meio íntimo para um leitor. Sorri amarelo e dei um "oi" igual ao que ofereci à moça da fila do cinema. Ele insistiu: "Martha, sou eu!". Socorro, eu quem? Então ele disse seu nome. Pasme: era um ex-namorado. A meu favor, deponho que foi um namorado da época da faculdade (não me obrigue a fazer contas), mas, ora, ainda que tenha sido na era paleolítica, conviveu comigo. Ao menos o seu olhar deveria ser o mesmo. Me senti um inseto.

Pois bem, depois de anos soterrada em culpa, descubro que a medicina está do meu lado. Acabo de saber que "sou péssima fisionomista" possui nome científico: prosopagnosia. Uma doença que debilita a área do cérebro que distingue traços e expressões faciais. Estou lendo o excelente Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera, cujo personagem vive o mesmo desconforto. Alguns médicos dizem que há apenas 100 casos diagnosticados no mundo - provavelmente eu e outros 99 acusados injustamente de ter o nariz em pé. Mas há quem diga também que o problema é mais comum do que se pensa e que atinge uma a cada 50 pessoas, ou seja, é praticamente uma epidemia.

Comum ou incomum, me concedam o benefício da dúvida: talvez eu seja uma pobre vítima da prosopagnosia e por isso não saio por aí dando dois beijinhos e perguntando pela família de quem, a priori, nunca vi antes. Se não for prosopagnosia, acredite: é astigmatismo evoluindo para uma catarata, somada a uma palermice que me dificulta distinguir semblantes. Nariz em pé, juro que não é.

Martha Medeiros - 13 de janeiro de 2013

Do livro “Liberdade Crônica”, pág.178 a 180