segunda-feira, 20 de julho de 2026

Amigas para Sempre

Uma boa amiga: a melhor coisa que se pode querer, e a mais difícil de encontrar. Mesmo sendo leais, gostando e torcendo pela gente, ninguém é perfeito, e existem umas que às vezes só matando. Exemplo: a que nunca deixa você voar muito alto para evitar desilusões futuras.

Cheia de entusiasmo porque conseguiu aquele trabalho maravilhoso com que sempre sonhou (e já escolhendo no armário os modelitos que vai usar), ouve um "cuidado, quanto mais alto o coqueiro, maior o tombo". Com uma só frase, corta o seu barato, mas que legal!

Em se tratando de namorado novo, o mesmo tipo de incentivo. "Já vi esse filme, e não dou um mês para você enjoar, te conheço." Essa frase tira qualquer um do sério, dá vontade de entrar para um Convento ou para a Máfia, só para produzir um choque, surpreender. Ouvir isso fazendo a sacola para o primeiro fim de semana que vão passar juntos é uma ducha de água gelada, e você não sabe o que te irrita mais: se a pretensão de te conhecer tão bem ou a memória implacável.

Outro tipo torturante é a que te analisa. Quando você telefona aos prantos porque cortou o cabelo além da conta, responde sempre com um "claro, estava tão bonita que não aguentou e teve que se punir". Ela não consegue entender um desejo simples, como querer ficar parecida com Sigourney Weaver, e só porque passou 12 anos num divã, acha que sabe mais do que Freud. Se você está sem vontade de ir à festa, ou diz que adiou a pintura da casa para setembro, responde de bate-pronto: "É a culpa".

Quando, esperando um telefonema, você tira o telefone do gancho para ver se está funcionando (coisa mais do que normal), ela não perdoa e fulmina com um "olha a ansiedade". Para essas, a fogueira de Joana d'Arc é refresco.

A que te adora e se preocupa com todos os seus problemas, costuma fazer esse tipo de pergunta insuportável:

Ele telefonou?

Afinal, Renatinha, passou de ano?

A viagem está de pé?

A butique aceitou o blazer de volta?

Conseguiu o apartamento?

A resposta a todas as perguntas é não, claro, e ela já sabia. A lei de Murphy (para quem não sabe: qualquer situação com alguma chance de não dar certo provavelmente não dará certo) está aí mesmo, e ter que responder te arrasa. Cuca fresca, você já tinha até dado a volta, mas ela consegue te lembrar de tudo que podia ter acontecido de bom e não aconteceu. Em matéria de corte, nem Isabel (a do vôlei) faria melhor.

Tem também a que aconselha, orienta, e sabe, com total segurança, o que vai acontecer se você tomar este ou aquele rumo. E quando por acaso acerta não deixa, jamais, de dizer: "Eu avisei". Haja.

Outro tipo, muito em moda ultimamente: a que não se envolve; ela não perde uma só chance de encaixar frases do tipo "problema seu", "só você pode saber". Se faz a pergunta mais banal, tipo "que vestido ponho hoje, vou de pantera ou de fina?" a resposta costuma ser um "depende, você é quem sabe como está por dentro (ai!), prefiro não opinar". Quando a amiga comum fica cochichando com seu namorado pelos cantos, ela procura ser objetiva: não tira sua razão, mas também não diz o que você mais precisava ouvir naquela hora: que a outra é uma desavergonhada, que isso não se faz, que o fogo do inferno é pouco pra gente dessa laia, que nunca mais vai cumprimentar quando encontrar.

Uma amiga que toma seu partido, que palpita (pouco) só quando perguntada, é tudo o que se quer, e a coisa mais rara de encontrar.

Quem tem uma desse quilate não vai se sentir sozinha, jamais.

Danuza Leão 

Do livro "Danuza, Todo Dia", Capítulo "Ser Humano" págs.168 e 169

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