Já li muitos comentários positivos a respeito de Belíssima. O que ainda
não li foi comentários sobre a abertura da novela. Ou talvez tenha me escapado.
O tema da abertura: a beleza feminina. A música: Você é linda, de Caetano
Veloso. Tinha tudo para ser um festival de bom gosto, no entanto, há
controvérsias. Se não há, olha eu aqui inaugurando uma.
A modelo que aparece de maiô, sabemos, tem um rosto perfeito: pena que
pouco apareça. Em evidência, apenas aquele amontoado de ossos. Coxas quase da
mesma espessura dos tornozelos e braços que mais parecem gravetos. Entre a pele
e as costelas, onde foi parar o recheio?
Pode ter sido apenas um problema de iluminação ou de recorte, mas o
resultado que nos é mostrado há meses, todas as noites, é o raquitismo como
sinônimo de perfeição estética.
Hoje é o Dia Internacional da Mulher, que na prática não ajuda a mudar
muita coisa, mas ao menos serve para reflexões, debates e crônicas temáticas. O
que valeria a pena discutir hoje? Proponho um assunto sem relevância política,
mas igualmente importante: o recheio. Tudo o que temos retirado de nós, tudo o
que tem sido lipoaspirado de nossas vidas.
Já fomos mais silenciosas. Mas, ao ganhar o direito à voz, nos tornamos
mulheres aflitas, que não se permitem um momento de quietude. Falamos, falamos,
falamos compulsivamente, como se fosse contraindicado guardar-se um pouco,
como se o silêncio pudesse nos inchar.
Já sofremos com mais pudor. Hoje nossas depréssão extravasadas,
distribuídas, ofertadas, viram capa de revista, como se a dor fosse uma inimiga
a ser despejada, como se o sofrimento fosse algo venenoso e necessitasse de
expulsão, como se não valesse a pena alimentar-se dele e através dele crescer.
Já fomos mães mais atentas, que geravam por mais tempo, por bem mais do
que nove meses. Levávamos os filhos dentro de nossas vidas por longos anos.
Hoje temos mais pressa em entregá-los para o mundo, a responsabilidade pesa, e
como peso é tudo o que não queremos, acabamos por nos aliviar dos compromissos
severos de toda educação.
Já fomos mais românticas. Hoje o sexo é mais importante, queima calorias,
melhora a pele e não duvido que um coração vazio também ajude na hora de subir
na balança.
Por um lado, conquistamos tanto, e, por outro, estamos nos esvaziando, querendo tudo rápido demais e abrindo mão de aproveitar o que a vida tem de melhor: o sabor, o gosto. Calma, meninas. Amor não engorda. Discrição não engorda. Reflexão não engorda. Não é preciso se agitar tanto, correr tanto, falar tanto, brigar tanto, nada disso é exercício aeróbico, é apenas tensão. Nesse ritmo, perderemos a beleza da feminilidade e acabaremos secas não só por fora, mas por dentro também.
Martha Medeiros – 08 de março de 2006.
Do livro “Liberdade Crônica”, pág. 30 e 32

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