quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

A mulher acabada

"Nunca houve retorno de irmãos, nem mesmo para breve visita. Eu confesso que desejei. Imaginei motivos. Quem sabe uma devolução de amor. Não é possível que a fraternidade não tenha deixado rastros. Um fio tênue de saudade talvez. Uma lembrança a ser dividida; um pedido de perdão que por acaso tenha sido gerado num breve engasgo de remorso, quando a consciência esclarecida faz vir à luz o erro cometido, não sei."

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O que é pior: Sentir saudades de quem já se foi, morreu. Ou sentir saudades de quem vive e nos esqueceu? Eu acho que a segunda situação, pois além da saudade, fica também o sentimento da rejeição, do abandono voluntário. Afinal ninguém escolhe morrer, mas escolhe se quer visitar - ou não - um parente. 
O trecho acima foi um dos que mais me comoveu, até porque tenho irmãos e não suportaria ser esquecida por algum deles. 
Em "A mulher acabada" Pe.Fábio narra a estória de dona Florinda, uma senhora de mais ou menos 90 anos. Não que no livro conste a idade dela, mas baseada no que está escrito (e copiei a seguir), cheguei à essa conclusão. "Eu comecei nos idos de 1922, quando, numa manhã fria de junho, fui recebida pelas mãos ágeis da parteira Leonira. A casa já estava cheia. Minha mãe trouxe ao mundo oito filhos homens. Fui a última a nascer".
Ela cresceu cuidando dos afazeres domésticos, juntamente com a mãe. Paixão só teve uma, Rômulo. Um rapaz que trazia verduras até sua casa. Eles flertaram durante dois anos, mas, devido aos impedimentos dela (o autoritarismo dos irmãos,do pai, cuidar da casa, etc), ele acabou desistindo e casou-se com outra.
Os irmãos aos poucos foram casando e saindo de casa. Com a morte da mãe e depois do pai, ela passou a viver sozinha na casa. Ela e as lembranças do passado.
Uma tarde, tomando chá com as amigas, ela ouve uma dizer a outra o quanto estava acabada. Foi um tapa na cara dela. Mas, no fim, ela acaba concordando. Ela estava mesmo acabada! E não era só por causa da idade avançada, mas principalmente pelas frustrações da vida. O desprezo dos irmãos. Ser abandonada pelo homem amado. Tudo isso "acabou" com ela. Literalmente.
"Lugar de sofrer é na intimidade do lar. Os antigos sabiam disso. A espessura das paredes de minha casa me autorizam choro e gritos inconsoláveis. Foi o que fiz. Por duas horas e meia, debulhei-me em lágrimas diante do espelho de minha penteadeira. Depois de digerida a ofensa, tomei um café amargo e cheguei à conclusão de que Neusa estava coberta de razão. Estou mesmo acabada. O rosto que tenho não combina com inícios. Eu tenho cara é de fim, epílogo... O que sobrou são os créditos finais, assim como no cinema, quando, depois de longa projeção, o filme é reduzido a nomes que não nos interessam e que sobem lentamente ao som de uma trilha sonora triste perpassada por sons diminutos. Eu estou mesmo acabada."

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