segunda-feira, 13 de outubro de 2014

O desapontamento do amor

Antero chegou. Antes não tivesse vindo. Talvez assim eu continuasse mergulhada no desejo de sua presença. Tê-lo ao alcance das mãos desencadeou meu desencanto. Ver os detalhes da bainha de suas calças, o ligeiro encardido do colarinho, tudo parecia remeter-me à conclusão de que a ausência é bem melhor que o peso do corpo, a dura matéria que produz sorrisos e secreções indesejadas. Antes tivesse me contentado com tudo que dele imaginei. Cartas pousadas sobre o colo, palavras rasgando ao meio minha alma, tornando-me hospedeira de ansiedades felizes, provocando frio na espinha cada vez que um pensamento pulava a cerca da moral, do comportamento permitido, e aos braços de Antero me atasse.
O amor é mistério. Antes de abrir a porta eu portava em minha alma um candelabro imenso de motivos futuros. Ansiava atar minhas esperanças a suas calças, erigir em seu coração a morada onde eu envelheceria. Mas o inesperado aconteceu. A presença de Antero produziu um sopro volumoso na direção de minhas velas.
Ele voltou cheio de projetos. Depois de dois anos vivendo no interior de um pequeno país africano, chegou desejoso de casamento, laços eternos que lhe concedessem a tão desejada estabilidade afetiva. Eu já sabia de suas intenções. Foram dois anos de correspondência trocada com regularidade espartana. Alucinava-me ver chegar aqueles envelopes de cores fortes, vibrantes. Arrepiava-me saber que as palavras lavraram terras distantes para que pudessem ser colocadas sobre o meu colo, desembrulhadas como se fossem flores chegadas em cesto de vime, milagre que se constrói a partir de distâncias humanas, estradas e mares posicionados como molduras de um amor que faz chegar a presença, mesmo quando só a ausência é o que temos.
Copiei acima um trecho de um dos contos que está no livro do Pe.Fábio de Melo. O final já dá para imaginar. Quando terminei de ler, pensei. "Qualquer semelhança, com nomes, pessoas ou fatos reais terá sido mera coincidência". Por que pensei isso? Com certeza, algumas pessoas e eu me incluo entre elas, passou por situações semelhantes. É lógico que na atualidade, as cartas foram trocadas por mensagens na internet, depois e-mails, seguido do telefone e finalmente... O encontro. E quando esse dia chega...
O tempo que se leva entre o início e o muitas vezes "frustrado" encontro também não é tão longo. Porém, com certeza, o que fica após, é o vazio. 
E quando o caso é igual ao "conto"... Voltamos para o nosso mundinho. Difícil se acostumar a não ter mais a presença da ansiedade em ligar o computador para ver se existe mensagem. Ou então acordar de manhã com o alarme do celular trazendo um "bom dia". 
Mas, um dia o amor chega. E o vazio, a ausência é substituída por momentos em que se sentir só é somente para quem não dá uma oportunidade para si, e para o outro.
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