Tenho observado esse pessoal faz um tempo. Eles me provocam reações
diversas: sinto repulsa, sinto medo, sinto desânimo, mas acho que a sensação
que prevalece é mesmo a compaixão. Porque eles são tão recalcados que não
conseguem se manifestar no mundo de outra forma. A única coisa que possuem para
exibir é isso: seu espírito de porco.
Não é um defeito novo, mas ganhou um espaço de divulgação inimaginável na
internet. Se antes eles exerciam seu espírito de porco em pequenos grupos, em
comentários ferinos para meia dúzia de ouvidos, agora eles abusam da sua tolice
em rede internacional para um público tão amplo que os deixa embriagados com o
alcance atingido. Eles são os neorretardados, os pusilânimes de grande escala.
Se você é uma pessoa de discernimento, que seleciona a informação que
obtém, talvez ainda não tenha se deparado com eles. Sorte sua. Mas se tiver
curiosidade de saber como a coisa funciona, entre em qualquer site de notícias
e dê uma olhada nos comentários deixados. É de perder a esperança num mundo
mais elegante.
Para exemplificar: nas últimas semanas um site colocou no ar duas
notícias de segunda linha, que não chegaram a repercutir mais do que poucas
horas. Uma delas era sobre uma garota de dezoito anos que se jogou da Torre
Eiffel, em Paris. Chegaram a dizer que sería uma brasileira, mas era uma
africana. Em poucos minutos, essa notícia gerou 1.581 comentários de gente
lesada das ideias, cujo único prazer é fazer piadinha sobre a dor alheia, sem
conseguir articular um raciocínio lógico. Pessoas que têm na agressividade sua
única forma de expressão. Foram 1.581 comentários que deixam claro a quantidade
de infelizes espalhados por todos os cantos. Porque o espírito de porco nada
mais é do que uma exposição despudorada de infelicidade. Como o cara não se
suporta, detona com tudo o que vê pela frente.
No mesmo dia desse suicídio, foi noticiada tam-bém a estreia da primeira
gondoleira de Veneza. Depois de séculos de hegemonia masculina, agora há uma
mulher conduzindo turistas nas gondolas da mais deslumbrante cidade italiana.
Fato que não mobiliza o mundo como a morte de Michael Jackson, mas é uma
informação curiosa e simpática, que poderia gerar saudações a mais este espaço
conquistado pelas mulheres, ou ser simplesmente ignorada, o que também é
legítimo. Mas não. Os espíritos de porco, sem ter nada mais produtivo pra
fazer, deixaram registradas suas manifestações de preconceito, numa exibição
constrangedora de estreiteza mental. Porque o espírito de porco não é apenas
uma pessoa com o humor mal-lapidado. Ele é um ignorante com empáfia.
Se fossem poucos, nada a temer. Mas a tacanhice é uma epidemia bem mais assustadora do que qualquer gripe. Porque não é temporária e tampouco tem cura. É o retrato do isolamento e da deseducação de uma geração que, ao ter um teclado à disposição e o anonimato garantido, expõe toda sua miséria intelectual e afetiva. É a turma do "dāāā" ganhando voz e propagando a mediocridade universal.
Martha Medeiros - 05 de agosto de 2009
Do livro "Liberdade Crônica", pág. 241 a 243















