Mantenho correspondência por e-mail com algumas pessoas que moram fora de
Porto Alegre e fora do Brasil.
Não há um único e-mail, de ida, ou de volta, em que não se fale
rapidamente do tempo. "Aqui está um calor dos infernos". "Pois
aqui choveu o dia inteiro e refrescou".
Uma conversa mundana que eu achava típico de pessoas mundanas como eu,
mas quando li o livro que traz as cartas que Clarice Lispector trocava com
alguns de seus amigos, reparei que 90% delas também continham observações
meteorológicas. Por mais filosófico ou intelectual que fosse o teor da carta,
sempre havia um momento para falar do sol ou do nublado lá fora. Fico pensando
o que significa isso. Que me importa se em Berlim está chovendo ou se no Rio
faz 42 graus à sombra, já que não estou de passagem marcada para lá? O que
importa para meus amigos forasteiros se em Porto Alegre choveu muito em 2001?
Todos os dias chove ou faz sol, está frio ou quente, úmido ou seco, e a cada
manhã isso nos parece um fenômeno sobrenatural e espantoso.
Creio que compartilhar as condições climáticas do lugar em que se está é
um recurso de aproximação. É uma maneira de nos situar geograficamente, de
preparar um cenário visível para quem não está nos enxergando. Lá no hemisfério
norte a pessoa está encarangada, congelada e, no entanto, pode nos imaginar
bronzeada e suando, vestindo uma leve blusinha de alças. E talvez seja também
uma maneira de justificar nosso humor: temos nossas próprias variações de
temperatura, somos pessoas nubladas ou ensolaradas, gélidas ou quentes. A
meteorologia nos influencia tanto quanto a posição dos astros, e se não estamos
muito pra conversa, vai ver é porque tem uma ventania lá fora que está
perturbando por dentro também. Não sei se você está lendo este texto na beira
da praia ou embrulhado num cobertor. Não sei onde você está. Não sei se há um
temporal se armando ou se está um daqueles dias cinza que provocam melancolia
na gente. Se eu soubesse, talvez soubesse um pouco de você. É um mistério que a
natureza não explica: nossa necessidade de localizar o outro climaticamente.
Relatamos em perguntar: você está deprimido hoje? chorando muito? com vontade
de cometer uma loucura? com saudades de alguém? Em vez disso, é tão mais fácil:
como é que está o tempo aí?
Aqui, agora, chove, mas acho que vai abrir.
Martha Medeiros - setembro de 2001
Do livro "Felicidade Crônica", págs. 229 e 230




































































