quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Profissão de Futuro

Houve um tempo em que quando se perguntava a uma criança o que ela queria ser quando crescesse, a resposta variava entre artista de cinema, médico ou aviador. Anos depois, a moda era a arquitetura; depois veio economia, administração de empresas, isso para não falar do sonho eterno: ser funcionário público.

Na década de 80, a meta suprema era ser cantor de rock ou ator da Globo, mas agora já se sabe: ser deputado é apenas a melhor coisa do mundo. Poder, dinheiro, notoriedade, um futuro pra lá de garantido (aposentadoria com oito anos de casa), quem não quer? A grande dúvida: federal ou estadual? Estadual é joia; não faz o sacrifício de trabalhar de terça a quinta (e em Brasília), e sem ninguém para controlar a frequência ao trabalho, dá até para pegar uma praia. Perde o auxílio-moradia, mas tem o privilégio de morar na cidade mais bonita do mundo, e cada vantagem de dar gosto. No momento estão todos de carro novo, zerinho, com chapa fria e lugar privativo para estacionar em plena Santa Clara (motorista e 500 litros de gasolina por mês); melhor, impossível.

Para os que gostam de usar terno e gravata, uma verba especial para cuidar da elegância; eles pensam em tudo. Quem faz o gênero mais esportivo resolve com uma boa camisa desabotoada, o peito à mostra (sem precisar abrir mão da tal verba especial, é bom lembrar). Vai chegar o dia em que estarão todos de bermuda, sandália modelito Joãozinho Malta, eles merecem.

Deputados, sobretudo os federais, são vistos frequentemente à tarde em programas de televisão, sob o pretexto de divulgar as ideias do partido; mas bater papo a tarde inteira, sentado entre um ginecologista e uma cantora, será que tem a ver?

Brasília oferece a vantagem das viagens internacionais. O senador Ney Maranhão só a Paris já foi 35 vezes e à China 5, tem melhor? Eles viajam muito e sempre em grupo para se inteirar do problema da aftosa na Índia, da condição dos drogados em Bruxelas, do cultivo da beterraba em Bangcoc; quando o itinerário interessa, levam as esposas, e alguns privilegiados conseguem integrar a delegação do Brasil na ONU.

São três meses no bem-bom, com passaporte vermelho, primeira classe, diárias altíssimas, assistência médica, dentária, telefone pago, e o direito de contratar um monte de assessores - dá pra arrumar a família toda - com salários maravilhosos. Aumentam os seus próprios, a imprensa chia e continua tudo exatamente igual. E melhor que tudo, exercem o belo sentimento da solidariedade: podem cometer qualquer tipo de crime, que dificilmente serão processados.

O que fazer para ser eleito? No Rio é fundamental ter um bom pé no futebol, no samba, em rádio/televisão. Se tiver trânsito em todas essas áreas, está resolvido.

Esta semana, o Congresso Nacional previu uma despesa de 3,2 milhões de dólares para viagens de parlamentares ao exterior. Oh, dúvida cruel: federal ou estadual?

Mas nada é perfeito, e hoje em dia, tiradas as honrosas exceções, confessar que é deputado está pegando mal. E se os ilustres não se mancarem, dentro de muito pouco tempo, quando alguém quiser ofender uma pessoa basta apontar, falando bem alto: "não adianta negar, você é deputado sim, posso provar". Melhor sair de perto, vai ter gente querendo linchar.

Sinceramente: você deixaria sua filha namorar um?

Danuza Leão 

Do livro "Danuza, Todo Dia", Capítulo "De Tudo Um Pouco" págs.241 e 242

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