A palavra avó nos remete a infância, quando passávamos o domingo numa
casa cheirando a comida, com toalhinhas de crochê decorando todos os ambientes
e um quarto sempre na penumbra, com móveis de madeira maciça e uma enorme
cadeira de balanço, onde cochilava a matriarca. Parece com a casa da sua avó
também? Pois guarde esta imagem na lembrança, pois ela não se reproduzirá tão
cedo. Já não se fazem mais avós como antigamente
Os estereótipos não são criados do nada: as avós eram assim mesmo, de
cabelo branco e óculos pendurados no nariz. Toda família que se preze teve sua
Dona Benta, e a imagem é tão forte que até hoje os comerciais de tevê insistem
em caracterizar as vovós como senhoras idosas, rechonchudas, com aventais
amarrados na cintura, cabelos presos num coque e aquele ar de quem não faz
outra coisa na vida a não ser torta de amoras. E os avôs? Seja na televisão ou
no rádio, todos têm voz de Papai Noel, enquanto, na realidade, os avôs da nova
era estão mais para Mick Jagger, que aliás já tem um neto. Acorde: os avós de
hoje não lembram mais das canções de ninar, mas sabem de cor a letra de
Satisfaction. Quer dizer que o lobo mau conseguiu engolir nossa vovozinha? As
que usavam touquinha e tinham voz rouca foram papadas, sim, meus pêsames. Mas
olha agora, o que vemos? Avós de jeans, dirigindo jipes, cabelo pintado, óculos
escuros. Avós que trabalham, que viajam, que dão festas, que namoram. Avós que
fazem lipo, aeróbica, jogam vôlei na praia e suspiram não pelo Sean Connery,
mas pelo Richard Gere. Será que elas sabem pregar um botão? Não custa tentar,
mas se a empreitada der errado, não complique. Ela terá o maior prazer em levar
a netinha para comprar uma roupa nova no shopping. E o almoço de domingo?
Também mudou. As avós de hoje não andam dispostas a engordar nem um grama com
macarronadas familiares e muito menos a quebrar suas garras vermelhas lavando
panelas. Que tal um buffet frio, muita água mineral e salada de frutas?
Combinado, ela entra com a água.
Netos e netas, não se sintam desamparados. As avós de hoje são muito mais
participantes. Podem não lembrar direito das histórias de Gulliver e do Gato de
Botas, mas têm histórias pessoais tão encantadoras quanto. São mais divertidas
e menos preconceituosas. Têm mais saúde e disposição para enfrentar parques,
teatrinhos, zoológicos. E o fato de buscarem a eterna juventude não lhes tirou
um pingo do afeto que sentem pela terceira geração. Ao contrário: nunca vi
tantas avós apaixonadas por seus netos. É um amor enorme, desinteressado, sem o
ônus do compromisso, só do prazer. Sempre foi assim, mas agora há um fator
novo: hoje as mulheres têm menos filhos, e em consequência, menos netos.
Antigamente a família era gigantesca, e não havia memória que chegasse para
lembrar no nome de toda a criançada. Hoje são só dois ou três, dá até para
providenciar um mini hotelzinho em casa para hospedá-los no final de semana.
Tem mais: o limite de idade para engravidar foi muito ampliado, e hoje uma
mulher pode ser mãe e avó quase ao mesmo tempo, encurtando as diferenças entre
uma e outra. Se por um lado estamos perdendo a imagem romântica da avó que cozinha,
faz tricô e tem roseiras no quintal, por outro estamos ganhando uma avó
bonitona, que tem o maior orgulho ao falar dos netos para as amigas e que
sempre estará disposta a nos dar um colo. Desde que esteja com uma roupa que
não amasse, claro.
O amor, que é o que interessa, não mudou. Mas mudaram as avós. Danuza Leão,
Baby Consuelo, Constanza Pascolato e tantas outras mulheres que falam gíria,
bebem cerveja estão sempre prontas para uma novidade são avós tanto quanto as
nossas saudosas velhinhas de casaquinho nos ombros. Atrizes que foram capa da
Playboy e tantas outras gatas da tevê também já tem filhos adolescentes que não
tardarão a procriar. Passarão, como toda mulher, pela menopausa, pelos
osteoporose e por outros distúrbios da idade, mas certamente não aceitarão o
papel de uma avó caseira, bordadeira e sem outra ambição que não seja cuidar
dos netos. Sempre se disse que a avó era uma segunda mãe. Pois ela nunca esteve
tão parecida com a primeira.
Martha Medeiros - novembro de 1995
Do livro "Felicidade Crônica", págs. 157 a 159









