quinta-feira, 23 de abril de 2026

O dono do livro

Escutei outro dia um fato engraçado contado pelo escritor moçambicano Mia Couto. Ele disse que certa vez chegou em casa no fim do dia, já havia anoitecido, quando um garoto humilde de 16 anos o esperava sentado no muro. O garoto estava com um dos braços para trás, o que perturbou o escritor, que imaginou que pudesse ser assaltado. Mas logo o menino mostrou o que tinha em mãos: um livro do próprio Mia Couto. "Esse livro é seu?", perguntou o menino. "Sim", respondeu o escritor. "Vim devolver." O garoto explicou que horas antes estava na rua quando viu uma moça com aquele livro nas mãos, cuja capa trazia a foto do autor. O garoto reconheceu Mia Couto pelas fotos que já havia visto em jornais. Então perguntou para a moça: "Esse livro é do Mia Couto?". Ela respondeu: “É". E o garoto mais que ligeiro tirou o livro das mãos dela e correu para a casa do escritor para fazer a boa ação de devolver a obra ao verdadeiro dono.

Uma história assim pode acontecer em qualquer país habitado por pessoas que ainda não estejam familiarizadas com livros - aqui no Brasil, inclusive. De quem é o livro? A resposta não é a mesma de quando se pergunta quem escreveu o livro. O autor é quem escreve, mas o livro é de quem lê, e isso de uma forma muito mais abrangente do que o conceito de propriedade privada. O livro é de quem lê, mesmo quando foi retirado de uma biblioteca, mesmo que seja emprestado, mesmo que tenha sido encontrado num banco de praça. O livro é de quem tem acesso às suas páginas e através delas consegue imaginar os personagens, os cenários, a voz e o jeito com que se movimentam. São do leitor as sensações provocadas, a tristeza, a euforia, o medo, o espanto, tudo o que é transmitido pelo autor, mas que reflete em quem lê de uma forma muito pessoal. É do leitor o prazer. E do leitor a identificação. É do leitor o aprendizado. É do leitor o livro. 

Dias atrás gravei um depoimento para o rádio em que falo aos leitores exatamente isso: os meus livros são os seus livros. E são, de fato. Não existe livro sem leitor. Não existe. É um objeto fantasma que não serve pra nada.

Aquele garoto de Moçambique não vê assim. Para ele, o livro é de quem traz o nome estampado na capa, como se isso sinalizasse o direito de posse. Não tem ideia de como se dá o processo todo, possivelmente nunca entrou numa livraria, nem sabe o que significa tiragem. Mas, em seu desengano, teve a gentileza de tentar colocar as coisas em seu devido lugar, mesmo que para isso tenha roubado o livro de uma garota sem perceber. Ela era a dona do livro. E deve ter ficado estupefata. Um fã do Mia Couto afanou seu exemplar. Não levou o celular, a carteira, só quis o livro. Um danado de um amante da literatura, deve ter pensado ela. Assim são as histórias escritas também pela vida, interpretadas a seu modo por cada um.

Martha Medeiros - 06 de novembro de 2011

Do livro "Liberdade Crônica", pág. 254 e 255

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Oração do Zé

No interior de Minas Gerais, vivia um homem que se chamava José. Todos os dias antes de trabalhar na lavoura ele passava na igreja local, entrava, ia ao sacrário e se ajoelhava. Depois saía para trabalhar.

Todos os dias lá estava ele, fazendo o mesmo ritual, entrava se ajoelhava e ia embora. O padre que observava sua atitude, foi perguntar porque rezava tão rápido, e a resposta foi imediata: "Eu não sei ler nem escrever. Não conheço as orações que vocês conhecem e muito menos sei falar as palavras bonitas que falam. Eu somente chego aqui em frente, olho para Ele e digo: Jesus, aqui é o Zé".

E assim se passaram anos e anos até que um dia Zé não apareceu. Depois de uma semana, o padre preocupado procurando saber notícias do Zé, descobriu que ele havia sido atropelado e estava internado no hospital.

O padre foi então visitá-lo, mas antes procurou uma enfermeira para saber como ele estava.

"O Zé está muito bem! O impressionante é que desde que ele chegou aqui todos estão muito felizes e se recuperando mais!".

O padre entrou em seu quarto e perguntou: "Zé, o que você fez para motivar todos aqui?".

"Eu não fiz nada, é a visita que eu recebo todos os dias", respondeu. O padre sabia que ele não tinha família, amigos ou pessoas que se preocupassem com ele, mas ainda assim perguntou:

"Que visita tão maravilhosa é essa?"

Com um grande sorriso no rosto ele respondeu:

"Todos os dias exatamente no horário em que eu ia à igreja, Jesus chega bem perto da minha cama e diz: Zé, aqui é Jesus."


segunda-feira, 13 de abril de 2026

Onze meses sem a minha mãe

Oi, mãezinha. A bênção!

Onze meses... Foi nesse dia, do ano passado que a senhora dormiu e não acordou mais. Era domingo de Ramos. Queria muito saber como foram as horas que antecederam ao AVC. Soube que a senhora acordou. Tomou seu café. E voltou para a cama. Quem viu ou conversou com a senhora foi o Nego. Mas nunca falei sobre isso com ele. Para poupar ele e também não sei se ele saberia dizer ao certo se a senhora falou alguma coisa.

Saber disso também não mudaria nada. É só cutucar a ferida. Então, não só com ele, mas entre nós, fez-se silêncio sobre aquele dia e os outros trinta dias. É assim que estamos levando a vida.

E o Google continua fazendo as montagens com as fotos da senhora. O que só faz aumentar a saudade.🥺

Mas vamos aos acontecimentos deste último mês:

Infelizmente - para nós - a tia Susie faleceu no dia 03 - sexta-feira da Paixão. Digo para nós, porque imagino que a senhora, o tio Adérico, tia Satie, tio Cláudio, a vó, o vô devem ter ficado felizes por recebê-la. Ela se foi em uma data marcante. Por ser sexta-feira da Paixão e por ser um dia, entre dois também importantes. Duas irmãs aniversariantes. A tia Janete que fez dia 02 e a senhora que faria dia 04. 

Tivemos a Páscoa. Lembrei da Páscoa do ano passado, que passei com a senhora na Unicamp.

Quanto a família, sem muitas novidades. A Adriana e Henrique foram na segunda-feira para Foz do Iguaçu. Estão voltando hoje. 

A Silvana me deu um sustinho em um domingo que estive na casa da senhora. Ela contou que tinha tido uma dor de cabeça muito forte e estava com a vista embaçada. Mesmos sintomas que a senhora teve dias antes do AVC. E veio com um papo besta, sobre entubar, caso acontecesse com ela, o mesmo que aconteceu com a senhora. Sei que fiquei muito assustada e preocupada. Ela foi ao médico e hospital. Fez exames. A pressão dela que sempre foi baixa alterou um pouco. E as manchas na vista o médico falou que é normal. Coisas da idade. A Silvana acha que isso está acontecendo por causa da mudança na rotina dela. Acordar cedo para levar a Alice para a escola. A senhora sabe que a Silvana é notívaga, né?

O Zé está bem. Comprou uma moto nova. Está vendendo a moto Shadow e o Logus. Os filhos estão bem. O Danilo fez uns exames e descobriu que também é hipertenso. Olha a herança que estamos deixando. O Henrique (meu neto) está bem.

Mãe, ore por nós! O mundo aqui está bem conturbado. Guerras e coisas que mexem com nosso sossego. Tem hora que agradeço da senhora não estar mais aqui. Aliás, essa semana tive um sonho sobre o fim do mundo. E eu indo para ficar com a senhora. 

E para finalizar, ontem a noite foi crisma da Eliane . Eu fui madrinha dela. Já é a terceira vez que sou madrinha dela: batismo, casamento e agora, de crisma. A missa foi longa e linda. Tinha 91 crismandos adultos. Achei lindo tantos homens e mulheres recebendo esse sacramento. É mais feliz ainda pela Eliane que está seguindo firme na religião. Que Deus a abençoe sempre 🙏

 Acho que por esse mês é o que tenho para contar. Voltarei no próximo mês com mais novidades.

Te amo mãezinha. 💖Para sempre! Saudades eternas!💕💞

quarta-feira, 8 de abril de 2026

No "fim" cada um quer ficar com a mãe

Estranho e triste o meu sonho...

Como a maioria dos sonhos ou pesadelos, não dá para ter uma certeza do local, do lugar, nem mesmo das pessoas presentes. Tudo meio confuso. Mas acordei lembrando desses pontos:

Eu estava em um ambiente – provavelmente sala – do que seria minha casa. Estava sentada e meus filhos estavam comigo. Estava escuro, não uma escuridão total, mas pouca luz. Eu praticamente só via meus filhos. Também não sei afirmar se estavam os três.

Nós estávamos quietos. Preocupados. Tensos. Eu me levantei e falei que ia para junto da minha mãe. Que não ia deixá-la sozinha. Que ficaria com ela até o fim. O nosso fim.

Meus filhos se levantaram e então perguntei a eles onde e com quem eles iriam ficar. E eles falaram que tinham ido para ficar comigo. Acordei!

Acordei bem triste porque meus filhos pensaram a mesma coisa que eu. Eles foram ficar comigo. E eu querendo sair para ir ficar com a minha mãe. Estava abandonando-os. E, por fim, me lembrei que minha mãe já faleceu.

Mas vou falar que não é à toa que tive esse sonho. Ontem vi uma notícia na internet que mexeu comigo. No meu exterior eu não deixo transparecer que fico chocada com algumas coisas que estão acontecendo, mas no meu íntimo, sinto muito. E a noite, sonho, ou tenho pesadelos. A notícia foi essa.👇

Este homem está causando desde que assumiu a presidência. Não bastasse a guerra da Rússia e Ucrânia, de Israel e Palestina... Nem parece que estamos no Século XXI. Chega de guerras!

terça-feira, 7 de abril de 2026

Tati e o rato

Faz tempo que não dou tanta risada, como hoje. Vou contar pra você rir também. Se achar graça, claro.rsrs

Eu e a Tati estávamos falando sobre o que fizemos no fim de semana prolongado... Ela contou que foi limpar um cantinho do quintal e, ao levantar umas madeiras, ela viu embaixo um rato. 

Perguntei se ela tinha matado o rato. Ela disse que não. Que não tem coragem. Na verdade, nem eu. Ela disse que voltou a madeira no lugar e deixou o rato lá. 

Ficou pensando o que iria fazer. A Gabi, irmã dela, falou de um tapete com cola. Que ao andar em cima dele, o rato fica grudado. A Tati disse que comprou e colocou perto de onde o rato está. Eu perguntei e aí? O rato vai ficar preso e o que você vai fazer com ele? Eu também não ajudo, né?rsrs É que como sei que ela não tem coragem de matar. Então ela me disse que acha que ele deve morrer. Porque não vai conseguir sair, vai ficar sem comer, sem beber. 

E ela continuou... Disse que para atrair a atenção dele, colocou comidinhas. E sabe o que ela colocou? Você não vai acreditar. Colocou pedaço de frango assado, pipoca e batata palha. Eu não aguentei quando ela falou isso. Chorando de rir perguntei se ela não pensou em colocar queijo. Que pelo menos é o que a lenda diz que eles comem. Mas ela disse que não tinha queijo. Por isso substituiu pelo que tinha. 

Nós duas ficamos rachando de rir. Falei para ela que está parecendo mais que ela quer criar o rato. E que se o rato gostar do cardápio, jamais vai embora. Vou falar... Já vi muitos meios de acabar com um rato, mas dando de comer: frango, pipoca e batata palha, é a primeira vez.