Uma boa amiga: a melhor coisa que se pode querer, e a mais difícil de
encontrar. Mesmo sendo leais, gostando e torcendo pela gente, ninguém é
perfeito, e existem umas que às vezes só matando. Exemplo: a que nunca deixa
você voar muito alto para evitar desilusões futuras.
Cheia de entusiasmo porque conseguiu aquele trabalho maravilhoso com que
sempre sonhou (e já escolhendo no armário os modelitos que vai usar), ouve um
"cuidado, quanto mais alto o coqueiro, maior o tombo". Com uma só
frase, corta o seu barato, mas que legal!
Em se tratando de namorado novo, o mesmo tipo de incentivo. "Já vi
esse filme, e não dou um mês para você enjoar, te conheço." Essa frase
tira qualquer um do sério, dá vontade de entrar para um Convento ou para a
Máfia, só para produzir um choque, surpreender. Ouvir isso fazendo a sacola
para o primeiro fim de semana que vão passar juntos é uma ducha de água gelada,
e você não sabe o que te irrita mais: se a pretensão de te conhecer tão bem ou
a memória implacável.
Outro tipo torturante é a que te analisa. Quando você telefona aos
prantos porque cortou o cabelo além da conta, responde sempre com um
"claro, estava tão bonita que não aguentou e teve que se punir". Ela
não consegue entender um desejo simples, como querer ficar parecida com
Sigourney Weaver, e só porque passou 12 anos num divã, acha que sabe mais do
que Freud. Se você está sem vontade de ir à festa, ou diz que adiou a pintura
da casa para setembro, responde de bate-pronto: "É a culpa".
Quando, esperando um telefonema, você tira o telefone do gancho para ver
se está funcionando (coisa mais do que normal), ela não perdoa e fulmina com um
"olha a ansiedade". Para essas, a fogueira de Joana d'Arc é refresco.
A que te adora e se preocupa com todos os seus problemas, costuma fazer
esse tipo de pergunta insuportável:
Ele telefonou?
Afinal, Renatinha, passou de ano?
A viagem está de pé?
A butique aceitou o blazer de volta?
Conseguiu o apartamento?
A resposta a todas as perguntas é não, claro, e ela já sabia. A lei de
Murphy (para quem não sabe: qualquer situação com alguma chance de não dar
certo provavelmente não dará certo) está aí mesmo, e ter que responder te
arrasa. Cuca fresca, você já tinha até dado a volta, mas ela consegue te
lembrar de tudo que podia ter acontecido de bom e não aconteceu. Em matéria de
corte, nem Isabel (a do vôlei) faria melhor.
Tem também a que aconselha, orienta, e sabe, com total segurança, o que
vai acontecer se você tomar este ou aquele rumo. E quando por acaso acerta não
deixa, jamais, de dizer: "Eu avisei". Haja.
Outro tipo, muito em moda ultimamente: a que não se envolve; ela não
perde uma só chance de encaixar frases do tipo "problema seu",
"só você pode saber". Se faz a pergunta mais banal, tipo "que
vestido ponho hoje, vou de pantera ou de fina?" a resposta costuma ser um
"depende, você é quem sabe como está por dentro (ai!), prefiro não
opinar". Quando a amiga comum fica cochichando com seu namorado pelos
cantos, ela procura ser objetiva: não tira sua razão, mas também não diz o que
você mais precisava ouvir naquela hora: que a outra é uma desavergonhada, que
isso não se faz, que o fogo do inferno é pouco pra gente dessa laia, que nunca
mais vai cumprimentar quando encontrar.
Uma amiga que toma seu partido, que palpita (pouco) só quando perguntada,
é tudo o que se quer, e a coisa mais rara de encontrar.
Quem tem uma desse quilate não vai se sentir sozinha, jamais.
Danuza Leão
Do livro "Danuza, Todo Dia", Capítulo "Ser Humano" págs.168 e 169













